[[legacy_image_118108]] Os economistas atribuíram à inflação persistente e ao furo do teto (da regra que limita os gastos de agora aos do ano anterior mais inflação) a alta de 1,5 ponto percentual na taxa Selic adotada na quarta-feira pelo Banco Central. A decisão empurrou os juros básicos para 7,75% ao ano e já há um aviso do BC de que mais 1,5% serão acrescentados em dezembro, chegando a 9,25%. Se de um lado, esse patamar combate os aumentos de preços, por outro compromete uma retomada mais forte em 2022, com alguns bancos apostando em recessão – uma catástrofe para os brasileiros e para as pretensões eleitorais do governo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! https://assine.atribuna.com.br/ E é neste último caso que a própria política restritiva do BC corre sério risco de ser anulada, prolongando o período de juros elevados. Se o Palácio do Planalto pretende injetar dinheiro na economia para angariar votos, ele vai reduzir o impacto da Selic mais salgada. A autoridade monetária, por meio das taxas mais altas, busca derrubar o consumo via crédito caro e desestimular os reajustes dos supermercados e serviços. O Governo Dilma Rousseff trouxe uma lição importante que não pode ser ignorada. Na época, a gestão petista forçou a queda dos juros, segurou os reajustes de combustíveis da Petrobras, interferiu no meio elétrico e, pelo menos no início, manteve em ritmo acelerado a transferência de renda para as famílias mais pobres e as mensalidades dos universitários. Essa política comprometeu as contas públicas e alimentou a inflação. Entre novembro de 2013 e junho de 2017, no Governo Temer, a Selic permaneceu acima dos 10% ao ano, com pico de 14,25% entre julho de 2015 e agosto de 2016, no impeachment de Dilma. A lógica do juro alto é dar um choque no consumo em um período curto, para a inflação cair gradualmente. Se for por muito tempo, a atividade econômica se atrofia, com nefasto impacto social, e o endividamento público explode devido aos próprios juros altos. Agora é muito arriscado abusar do gasto público, apostando que a retomada vai melhorar a receita de impostos. Isso porque a pandemia desequilibrou a oferta e o consumo sem precedentes. A reabertura das economias exige muitas matérias-primas e, ao mesmo tempo, as fábricas não conseguem abastecer o mercado. Já o consumo está anabolizado com injeção de capitais públicos por meio de crédito barato às empresas e auxílios salariais, alimentando a inflação mundial. No Brasil, a inflação é uma doença dos anos 1980 que hora se manifesta e em outras se resguarda, mas não desaparece totalmente. Como os governos não cortaram gastos, os juros persistiram boa parte do tempo na estratosfera, deixando o Brasil anêmico, enquanto Coreia do Sul, China, Estados Unidos e Austrália se expandiram nas últimas três décadas. Como uma família em dificuldades que aperta o cinto, o poder público também deve reduzir suas despesas para investir quando o ambiente for mais propício ao desenvolvimento.