(Joédson Alves/Agência Brasil) Com a inflação em níveis elevados, as famílias agora estão com uma parcela maior de suas rendas comprometidas com gastos essenciais, o que reduz a margem para poupar, gastar no fim de semana, investir em imóvel ou carro ou pagar os estudos dos filhos. Portanto, compreende-se o impacto da perda do poder aquisitivo na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta contornar o estrago com a força do seu discurso, que na prática não funciona perante efeitos tão contundentes. Segundo a consultoria Tendências, em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, a cada R\$ 100,00, as famílias tinham em dezembro sobra de R\$ 41,90 após os gastos essenciais. Mas no caso da renda domiciliar mensal de R\$ 3,4 mil (classes D e E), a folga caía para R\$ 20,60 a cada R\$ 100,00. Para a classe A, com rendimentos de R\$ 25,2 mil, sobravam R\$ 51,50 a cada R\$ 100,00. A inflação anual está em 4,56%, mas a Tendências calcula que, nos itens essenciais, esse índice é de 5,8%, o que atinge de forma impactante a baixa renda. Isso porque os alimentos, classe cujos preços estão entre os que mais subiram, consomem uma porção maior do salário desse público. Já as classes média e alta sofrem mais com combustíveis, que têm a cotação do barril estabilizada entre US\$ 70 a US\$ 77 desde setembro. Entretanto, esse segmento é influenciado pelo dólar, que no ano passado valorizou 27%. Como o País importa um quinto do diesel que consome, a subida do câmbio impactou na logística nacional, dependente desse combustível devido ao modal predominante, o rodoviário. Com a inflação no atual patamar, o governo poderia enfrentá-la por meio de um freio nos gastos, de forma a acelerar os efeitos da política restritiva do Banco Central, que se tivesse resultado rápidos, poderia começar a reduzir os juros ainda este ano. O rumo da gestão de Lula nesse sentido parece algo fora do horizonte por enfrentar queda de popularidade. Há o risco de Lula ampliar as despesas com medidas populistas para recuperar o apoio da baixa renda. O governo diz que a safra recorde, que ainda é uma previsão, vai aumentar a oferta de alimentos, mas isso depende do clima. Porém, não há expectativa de inversão de preços do café e das carnes, pois continuam com tendências de alta bem definidas. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também aposta na queda do câmbio para diminuir os preços, como os dos combustíveis. Isso não está garantido, pois o dólar tem relação direta com o presidente americano Donald Trump, que a qualquer momento pode suspender o tom moderado e voltar a estressar os indicadores mundiais. Além disso, a gestão de Trump é inflacionária por taxar as importações, e a inflação americana tem dado sinais de que está voltando a subir. Isso forçaria a alta dos juros dos EUA, empurrando para cima a moeda americana. Portanto, o certo é contar com soluções internas, e isso tem relação com o Governo Lula cortar gastos.