(Unsplash) A cotação do dólar chegou ontem a R\$ 5,76, no rastro da eleição americana, de desfecho incerto, apesar de algumas pesquisas sinalizarem alguma vantagem, muito pequena, do ex-presidente Donald Trump. O foco está em seu programa eleitoral, que prevê taxar as importações para estimular a indústria doméstica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como isso poderá aumentar os preços em inúmeros segmentos da economia dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Banco Central) recuaria do atual ciclo de corte de juros. Em reflexo, a renda fixa dos EUA manteria altas rentabilidades, atraindo capitais do mundo todo, inclusive no Brasil. Caso Trump vença e esse quadro realmente se confirme, haverá menor fluxo da moeda americana ao País e a Bolsa entrará em fase muito difícil, pois os fundos internacionais detêm muitas ações das empresas mais negociadas, como Petrobras, Vale e bancos. O Brasil deixou para trás suas crises cambiais, como nos anos 1980, quando havia o risco de não ter dólar para importar petróleo para o mês seguinte. Hoje, o saldo comercial está superavitário em US\$ 63 bilhões, puxado pelas exportações de petróleo, minério de ferro e agronegócio, e poucas importações. Além disso, o Banco Central tem reservas internacionais de US\$ 372 bilhões, chamadas pelos economistas de colchão para emergências, como cobrir despesas em moeda estrangeira com dívidas e compras externas. Todo esse quadro positivo do lado cambial teria mais efeito agora, atenuando a alta do dólar, se não houvesse a dúvida do mercado financeiro em relação às contas federais. Como há muito gasto público e as despesas obrigatórias, como aposentadorias e benefícios sociais, estão em ascensão, as incertezas são intensas. E com a expectativa de crise fiscal, a procura por proteção no câmbio se torna inevitável. Mas alguns economistas acham que o mercado exagera, pois a deterioração das contas públicas não vai chegar ao fundo do poço tão rapidamente como se especula. No fim das contas, haveria um pessimismo do setor financeiro devido à dificuldade de se adaptar ao vaivém dos juros, que estavam em queda e de repente voltaram a subir, e de um crescimento econômico até agora vigoroso que pode não se sustentar. Porém, por trás está o governo, que com seus passos titubeantes não têm como estimular qualquer otimismo. Já foi um grande avanço o presidente Lula deixar transparecer que vai concordar com algum corte de gastos. Entretanto, ontem, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que não havia data certa para anunciar um plano fiscal e que não será um “pacote”. Questionado se haveria redução de despesas entre US\$ 30 bilhões e US\$ 50 bilhões, disse desconhecer esses valores. Essas afirmações foram vistas como indefinição sobre o que será feito e que tudo está muito cru. A comunicação por autoridades econômicas é muito sensível e a incompreensão tende a piorar os indicadores quando há muita tensão no ar.