[[legacy_image_103716]] No acumulado de janeiro a agosto, de cada US\$ 100 do superávit (diferença entre exportações e importações) da balança comercial brasileira, US\$ 67 vieram da China. Com essa participação, o gigante asiático propiciou US\$ 35 bilhões do total do saldo positivo de US\$ 52,1 bilhões que o Brasil obteve, segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Trata-se de um resultado fenomenal frente a uma deterioração generalizada de índices econômicos, como inflação, desemprego e Produto Interno Bruto (PIB) em viés de baixa. O resultado se torna estratégico principalmente pelo contexto mundial de aversão ao risco, no qual as outras fontes de ingresso de moeda estrangeira no país podem secar e até se inverter. Por exemplo, seria o caso do Banco Central americano subir os juros, o que causaria uma fuga de dólares dos emergentes para os Estados Unidos. O BC brasileiro tem um colchão confortável de reservas internacionais de US\$ 370 bilhões, mas o fluxo diário de capitais ao Brasil pressiona a cotação do dólar, com o efeito de subir os custos internos das matérias-primas. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Ao mesmo tempo em que a China tem grande relevância para a solidez da balança comercial do Brasil neste ano, o peso da participação chinesa preocupa pela lado da dependência em relação ao país asiático, apesar de não chegar ao ponto das trocas do México com os Estados Unidos, historicamente por volta de 90%. Hoje a China compra por volta de 35% das exportações brasileiras. Para manter um certo equilíbrio, seria importante vender mais para os EUA, que é superavitário em relação ao Brasil, e para o terceiro principal parceiro, a Argentina, que precisa sair de sua crise econômica. Segundo o Icomex, a continuidade do vigor do saldo comercial brasileiro depende fortemente do próprio desempenho da China. O gigante asiático compra do Brasil basicamente soja, carnes, petróleo e minério de ferro. No caso da proteína animal, a China tende a reduzir as importações conforme recompõe o rebanho suíno, que foi reduzido por questões sanitárias. Há possibilidade de perdas com minerais se o governo de Pequim diminuir os estímulos à economia no pós-pandemia. Por outro lado, os chineses são hábeis negociadores e têm grande poder de pressão em eventuais disputas, lembrando que o país de regime comunista encontra dificuldades para ampliar suas vendas para europeus e americanos. A saída é comercializar mais com os emergentes. Compete ao Brasil saber aproveitar sua abundante capacidade de fornecimento de commodities agrícolas e minerais. Além disso, seria fundamental que o Itamaraty destravasse o acordo comercial com a União Europeia, mas o Brasil cometeu graves erros diplomáticos, está isolado politicamente e não parece que vai conseguir superar a força do protecionismo de segmentos econômicos da Europa.