Os candidatos brigaram e se atacaram - e praticamente não discutiram suas propostas (Antônio Cruz/Agência Brasil) O eleitor vai hoje às urnas após uma campanha de segundo turno para a Presidência, que já ficou para a história como uma das mais acirradas. O senador Flávio Bolsonaro (PL) largou como favorito por ter ficado à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na primeira etapa do pleito. Porém, as pesquisas evidenciaram a reação do petista, conferindo imprevisibilidade à apuração. Esta eleição também será lembrada por sua sordidez, devido às acusações e à guerrilha nas redes sociais. Os candidatos brigaram e se atacaram - e praticamente não discutiram suas propostas. A agressividade sempre fez parte do processo eleitoral, mas, desta vez, quem vai depositar seu voto o fará com muitas dúvidas sobre o que o vencedor deverá realizar nos próximos quatro anos. Sem conhecer as promessas a fundo, o cidadão ficará sem parâmetros para cobrar o governante. Com o debate na TV Globo, ao menos, os candidatos parecem ter percebido que houve um exagero, para não dizer desrespeito, no encontro anterior, na Band, quando as brigas atingiram seu ápice. Ambos voltaram a trocar ataques, mas apresentaram algumas de suas ideias. Lula defendeu seu legado de programas sociais, mas faltou explicar como efetivamente vai cuidar das contas públicas para manter suas iniciativas protegidas de uma crise fiscal. Flávio trouxe promessas de um futuro melhor, porém, sem esmiuçar como financiará suas realizações e os próprios projetos do petista, que prometeu continuar. Em eleições passadas, os candidatos da ocasião já não gostavam de expor seus planos de governo, mas acabavam sendo cobrados em entrevistas e vários debates. Hoje, eles se comunicam com seus apoiadores por meio de redes sociais, investindo em temas de seu interesse, o que dificulta fisgar eleitores que estão em diferentes bolhas. Trata-se de um novo tempo, o da tecnologia e dos aplicativos, que geraram mudanças de comportamento e formas de interação da política com a sociedade. Compete à imprensa cobrar explicações, apontar incoerências e apoiar o eleitor com informações isentas. Por outro lado, o eleitor mais exigente, curioso ou inconformado nunca teve tantos meios para se informar, ampliar seu conhecimento e registrar fotos e vídeos para questionar ou defender os candidatos com os quais se identifica. Passada a eleição, ninguém deve se iludir com a possibilidade de fim da polarização. Ela deverá continuar dividindo a sociedade. Se surgirá uma alternativa, só o tempo dirá. Pós-pleito, o vencedor terá muitas dificuldades orçamentárias. O que importa é realizar as transformações que o País necessita em saúde, educação e segurança, lembrando que poderão ocorrer muitas turbulências vindas do exterior, no âmbito de conflitos militares, guerra comercial e baixo crescimento econômico mundial. Além disso, o nível de exigência, como se vê em outros países com eleições recentes, deverá ser muito elevado.