A história recente da epidemia de HIV mostra que os avanços da ciência podem mudar o rumo de uma doença que, há poucas décadas, parecia invencível. O relatório mais recente do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), apresentado durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, esta semana, confirma esse progresso. O mundo registra hoje os menores índices de novas infecções e de mortes relacionadas à aids desde o início da epidemia. É uma conquista construída ao longo de anos de pesquisa, prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento. Mas a boa notícia vem acompanhada de um alerta preocupante. O próprio Unaids adverte que esses resultados estão ameaçados. Cortes de financiamento internacional já comprometem programas de prevenção, testagem e assistência em diversos países, especialmente aqueles com menor capacidade de investimento. Se essa tendência persistir, o mundo corre o risco de perder terreno justamente quando dispõe das melhores ferramentas científicas para controlar a epidemia e alcançar a meta de eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030. O Brasil ocupa uma posição singular nesse cenário. Continua sendo reconhecido internacionalmente pelo acesso universal e gratuito ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde, pela ampla oferta de testes, pela disponibilização de medicamento pré e pós-exposição e pela elevada cobertura terapêutica. Trata-se de um conjunto singular de políticas públicas construídas ao longo de décadas, que devem ser preservadas e fortalecidas. Ao mesmo tempo, o País precisa enfrentar um dado que merece reflexão. Enquanto o mundo reduziu de forma expressiva as novas infecções na comparação com 2010, o Brasil registrou aumento nesse mesmo período. Isso demonstra que oferecer tratamento de excelência não basta para interromper a cadeia de transmissão. É preciso impedir que novas infecções ocorram. Nesse contexto, surge outro desafio: medicamentos inovadores, como as novas formas de prevenção de longa duração, representam uma oportunidade para reduzir ainda mais a circulação do vírus. No entanto, preços elevados e dificuldades de acesso podem ampliar desigualdades justamente quando essas tecnologias deveriam beneficiar quem mais precisa. Também não se pode ignorar um aspecto geracional. Boa parte dos jovens de hoje não testemunhou o medo e o estigma provocados pela aids nos anos 1980 e 1990. Cresceram em uma realidade na qual o HIV passou a ser encarado como doença tratável, percepção que, embora reflita os avanços da medicina, pode reduzir a percepção de risco. É exatamente por isso que campanhas permanentes de conscientização continuam sendo indispensáveis. Informação de qualidade, educação sexual responsável e incentivo ao diagnóstico precoce precisam permanecer no centro das políticas públicas. A história da aids ensina que nenhuma conquista é definitiva.