( Reprodução ) O petróleo parecia estar com sua importância econômica corroída, com a ascensão das energias limpas. Entretanto, os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã provaram que o produto ainda é essencial para o mundo. De 28 de fevereiro, quando os bombardeios começaram, até a última sexta-feira, o tipo Brent (referência para a Petrobras) subiu de US\$ 77 para US\$ 109, alta de 41%. Esse percentual, se mantido ou até ampliado, poderá desacelerar a economia global ou causar recessão. O Brasil não sofrerá como nos anos 1970/1980, quando era um importador e, pior, não tinha dólares para comprar o produto. Entretanto, o País começa a enfrentar problemas com o diesel, derivado fundamental para uma economia altamente dependente do modal rodoviário. Aliás, esse meio de transporte dilui para o varejo, a indústria e o agronegócio os custos mais caros do combustível, alimentando a inflação. Apesar de ter se tornado um dos maiores produtores de petróleo, o Brasil importa 30% do diesel, e agora pode sofrer com os preços internacionais e um eventual sumiço se os fornecedores continuarem sem acesso ao Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã. Esse problema geopolítico tem reflexos eleitorais no Brasil. Eventual pressão do custo do diesel poderá desacelerar o corte de juros pelo Banco Central. O Governo Lula já tem um discurso para apontar culpados em relação à crise com o combustível. O presidente ampliou as críticas à privatização da BR, então distribuidora da Petrobras, lembrando que as reduções do litro da gasolina nas refinarias praticamente não chegaram aos postos. Além disso, o Palácio do Planalto se queixa da venda de unidades de refino ao setor privado, indicando que a estatal tentará comprá-las de volta. Portanto, a guerra se tornou uma oportunidade para defender a reestatização da cadeia de petróleo. Mas esse movimento contraria a experiência mundial e causa mais concentração, dificultando a concorrência. O que se precisa é exatamente o contrário, com mais empresas disputando preços e oferecendo combustíveis alternativos. A Petrobras presta relevantes serviços ao País e realiza imenso esforço tecnológico para extrair petróleo do pré-sal, mas ela não precisa controlar toda a cadeia. Além de estar exposta a políticos, que costumam causar estragos e sujeitá-la a prioridades eleitorais, a companhia deve ser lucrativa para sustentar seus investimentos. Deve-se lembrar que a guerra pode ter um breve desfecho. Ainda que o petróleo não caia a níveis recentes, a US\$ 60, é possível que o excesso de produção no mundo ajude a arrefecer o preço. Por isso, decisões imediatistas não ajudarão em nada o País, que precisa de políticas de longo prazo, inclusive sinalizada pela própria Petrobras – a empresa prevê autossuficiência do diesel em cinco anos. Por outro lado, o governo deveria estimular a entrada de mais companhias nesse setor e apoiar mais as energias limpas, que fazem com que se dependa menos do petróleo.