No Brasil, a comida mais cara tem pesado na popularidade de Lula (Jose Cruz/Agência Brasil) A imposição de tarifas americanas sobre produtos do Canadá, México e China abre uma nova guerra comercial no mundo, após uma prévia contra a Colômbia no começo da semana passada. A justificativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apesar dele ter sugerido motivação econômica (levar as indústrias para os EUA) na campanha eleitoral, se refere à imigração e ao tráfico de fentanil. Na invasão da Ucrânia pela Rússia, o governo de Vladimir Putin sofreu sanções, um nível de pressão mais abrangente e impactante. O que se deve observar é que desde então o clima para o comércio no mundo não foi mais o mesmo. Por isso, as atuais ameaças de Trump devem ser levadas a sério, por seu potencial efeito sobre a economia mundial ou de uma escalada, como exigir do Brasil que fique comercialmente apenas de um lado (dos EUA ou da China). No caso da Colômbia, Trump reverteu as medidas assim que o presidente Gustavo Petro aceitou receber os deportados pelos EUA. Com o México e o Canadá, taxados desde ontem em 25%, poderá ocorrer o mesmo. Talvez o republicano tenha deflagrado as restrições contra seus dois parceiros porque as conversas não avançaram. O que interessa ao Brasil é o quanto poderá ser atingido indiretamente. De concreto, há ameaças direcionadas ao Brics referentes à troca do dólar por moeda alternativa, algo ainda incipiente. Segundo o site Infomoney, como exemplo, Canadá e México fornecem carnes aos EUA, o que deve causar reflexos nos supermercados de lá. Em seu primeiro mandato, Trump adotou tarifas contra a China e o Brasil. Os chineses redirecionaram suas exportações ao Brasil, enquanto os brasileiros ampliaram suas vendas ao país asiático em 28%. Entretanto, a reportagem do Infomoney lembra haver a possibilidade da China crescer menos devido à sobretaxa e reduzir suas importações do Brasil. Na semana passada, questionado sobre eventuais taxas dos EUA sobre o Brasil, o presidente Lula respondeu prontamente que as aplicaria em igual medida. É o que têm afirmado México, Canadá e União Europeia, que também deve virar alvo de Trump. Mas isso faz parte do jogo diplomático, porque nos bastidores as notícias indicam disposição para negociar. Na prática, Trump joga para seu eleitorado, mostrando estar cumprindo o que prometeu. Se, nas conversas, ele extrair vantagens, poderá se vangloriar delas. Parece algo muito favorável ao norte-americano, mas de potencial efeito catastrófico na economia local. Trump admitiu que a inflação é uma possibilidade. Os EUA cresceram nos últimos anos, mas a perda do poder aquisitivo minou a campanha eleitoral democrata. No Brasil, a comida mais cara tem pesado na popularidade de Lula. Os economistas garantem que as tarifas, se aplicadas, vão chegar ao bolso dos americanos. Em consequência, os juros subiriam por lá, o que valorizaria o dólar no Brasil. No fim das contas, as economias estão mais conectadas do que se gostaria.