Apesar dos juros altos, do endividamento público e das famílias e do aumento das recuperações judiciais, o mercado de trabalho brasileiro permanece robusto e resiliente. A contratação com registro em carteira teve saldo de 165 mil vagas em agosto, enquanto a taxa de desocupação, que mede o desemprego formal e informal, se manteve em 5,3%. Para efeito de comparação, durante a pandemia, de 2020 a 2021, esse índice superou os 14%. Com o impacto de uma Selic de dois dígitos por período prolongado – desde fevereiro de 2022 – os economistas esperavam um arrefecimento do emprego. De fato, ele veio, mas a um ritmo ainda suave. Como a geração robusta de vagas é um fenômeno recente, as causas ainda serão estudadas. Entre elas devem estar ganho de produtividade devido às inovações tecnológicas e expansão do agronegócio. Porém, a impressão que se tem é que o mercado de trabalho, por sustentar uma massa salarial em níveis razoáveis, retroalimenta a economia, o que contraria a política do Banco Central de segurar as pressões inflacionárias por meio dos juros altos. A inflação perdeu fôlego nos últimos meses, mas não cedeu de vez porque o consumo das famílias, mesmo em queda, segue se mantendo e o governo continua a injetar dinheiro pelo País. Isso não significa que o gasto público elevado é o melhor caminho e que as críticas dos economistas são exageradas. O Brasil segue com crescimento muito moderado, que, se ampliado, dura pouco tempo porque causa desequilíbrio entre a oferta e a demanda, com a elevação dos preços voltando a atormentar os brasileiros. É preciso que o Brasil consiga se desenvolver com bases sólidas, com as contas estatais ajustadas e juros baixos, redução da burocracia e, principalmente, investimentos no ensino básico e na capacitação. Para entender a resiliência do mercado de trabalho, devem ser observados os atuais movimentos da economia, nem sempre nas metrópoles. As regiões com menores níveis de desemprego estão em estados com agronegócio pujante, como Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia. Além disso, a expansão do comércio eletrônico tem gerado investimentos em galpões logísticos em cidades com fácil acesso rodoviário aos grandes centros consumidores. Também há a mão do governo, com financiamento da habitação popular estimulando a construção. Já ocorre também a aceleração das concessões de infraestrutura, que vão exigir obras por muitos anos, como no caso da travessia entre Santos e Guarujá e a operação privatizada de várias rodovias. Além disso, prevê-se que vários data centers sejam construídos no médio prazo, gerando mais vagas nesse período. O mercado de trabalho, apesar de estar pressionado pelas ineficiências socioeconômicas históricas do País, apresenta sinais de que continuará vigoroso, mas é preciso fazer ajustes em várias direções, do custo do dinheiro à formação de profissionais qualificados.