Quando os anúncios de juros básicos dos bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos coincidem, o mercado se refere ao dia como superquarta, como nesta semana. Essas ocasiões exigem o dobro de atenção dos analistas brasileiros porque os capitais internacionais têm ampla participação na economia do País, desde o investimento direto na produção até a Bolsa, com a qual são responsáveis por até 60% das operações diárias. Desta vez, enquanto o BC do Brasil fez mais um corte de 0,25 ponto percentual, o Federal Reserve foi na direção contrária, aumentando em 0,25, após três anos sem uma subida da taxa. Ambos os países, na verdade, em maior ou menor grau, passam por momentos econômicos parecidos. O mais preocupante deles é o endividamento público, associado a juros altos para enfrentar a inflação. Estados Unidos e Japão, entre outras economias ricas, têm uma dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) maior que a do Brasil, porém, com a diferença de que a taxa brasileira está a dois dígitos desde 2022, inflando seu saldo devedor. A conclusão que se tem é que os governos pelo mundo deveriam ser mais austeros para reduzir o custo dos empréstimos algum tempo depois. Contudo, não o são, supõe-se porque a política se tornou mais populista, algo que tem raízes na pandemia, com a adoção de necessárias medidas emergenciais para apoiar as famílias e empresas. Mas os especialistas costumam alertar, principalmente no Brasil, que incentivos fiscais, ampliação de programas sociais e cheques temporários (neste caso, nos EUA), por melhorarem a popularidade do governo da ocasião, tendem a se tornar permanentes ou serem retomados mais vezes, desrespeitando as condições das contas públicas. Além disso, em vários países, a ascensão da extrema direita traz uma dificuldade para governos de partidos tradicionais adotarem planos impopulares de arrumação da casa. O risco de consolidação de políticas que toleram gastança pública é da maior gravidade, porque, como se vê no Brasil, gera déficits que precisam ser financiados com juros mais altos. Taxas mais elevadas fazem com que o capital que seria aportado no consumo e na produção seja direcionado para a renda fixa, desacelerando o crescimento econômico mundial, com possíveis recessões. No Brasil, os economistas dão como certa uma crise a partir do próximo ano caso não seja adotado um ajuste fiscal mais rigoroso. O que não seria incomum, pois isso costuma ser feito no primeiro ano de mandato. O que preocupa é que o presidente Lula, que já disciplinou as contas no passado, agora descarta a medida, ao mesmo tempo em que não está claro se o senador Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, embarcará nesse tipo de gestão impopular. O tema da austeridade ensaiava ganhar importância na campanha eleitoral, mas, assim como outros assuntos, perdeu o espaço do debate perante o caos no Supremo Tribunal Federal.