Estimativa do jornal britânico Finantial Times mostra que cerca de US\$ 900 bilhões, um terço do valor atual das grandes empresas de petróleo e gás, podem desaparecer se os governos de todo o mundo passarem a restringir mais agressivamente o aumento da temperatura média global, para que ela não ultrapasse 1,5ºC acima dos níveis industriais para o restante do século 21. Mesmo em um cenário menos restritivo – elevação da temperatura em 2ºC, que foi a meta estabelecida no Acordo de Paris, firmado por 195 países em 2015 –, os produtores de energia baseada em combustíveis fósseis (incluindo o carvão) terão de classificar mais da metade de suas reservas como imobilizadas. Se o limite de 1,5ºC for cumprido, mais de 80% dos ativos em hidrocarbonetos perderão valor. E o setor mais atingido é o do carvão, uma vez que ele responde por dois terços das potenciais emissões de carbono mantido em reserva. A maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, aderiu à iniciativa Climate Action 100+, que reúne 370 administradoras de fundos, que controlam cerca de US\$ 35 trilhões em ativos. O grupo busca ações contra a emissão de gases de efeito estufa, e os produtores de energia com grandes reservas de hidrocarboneto serão certamente atingidos. Essas empresas têm 2.910 gigatoneladas (GT) de emissões de CO2 embutidas em seus ativos, dois terços correspondendo a carvão e o restante petróleo e gás. A pergunta que se faz agora em todo o mundo é o que fazer e por quanto tempo esses ativos poderão manter seu atual valor. Embora o abandono completo dos combustíveis fósseis não esteja no radar imediato, é fora de dúvida que as mudanças já estão em curso. Para cumprir o limite de 1,5ºC de elevação da temperatura, estima-se que somente 464 GT seriam passíveis de ser produzidas até 2100, bem abaixo do estoque atual de 2.910 GT mantidos nos ativos remanescentes de carvão, petróleo e gás. Muitas companhias de petróleo já buscam diversificar seus negócios. A Orsted, da Dinamarca, tornou-se especialista em parques eólicos e tal movimento deve se intensificar nos próximos anos. No cenário de aumento de 2ºC, 29% das reservas de petróleo ficarão imobilizadas e serão eliminados US\$ 360 bilhões do valor das 13 maiores empresas internacionais do setor. Há risco efetivo de grande colapso nos preços dos ativos dessas companhias, e ameaça real às economias que forem dependentes do petróleo e gás. O Brasil precisa estar atento a esta realidade. O pré-sal tem limite para ser explorado, e a Petrobras precisa desenvolver estratégias e planejamento para transformar-se gradualmente em uma empresa de energia. Sem deixar de lado a produção de petróleo e gás, para a qual tem expertise reconhecida, deve se voltar, gradualmente, para fontes renováveis, investindo nessa área.