(Pixabay) Em reunião do Brics, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, fez um diagnóstico preciso, na terça-feira, sobre o rumo que o comércio mundial trilha – de desglobalização, protecionismo e fragmentação, que neste último caso pode ser entendido como enfraquecimento de blocos e entidades multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Ele mencionou ainda a reconfiguração das cadeias de suprimentos, que ameaça aumentar as desigualdades globais. Os comentários foram feitos durante encontro dos sherpas do Brics em Brasília, os negociadores que preparam os acordos para os chefes de Estado. Vieira não citou o nome do presidente americano Donald Trump, mas obviamente essa inversão nas relações internacionais tem a ver com o republicano. Trump é o principal impulsionador, mas não o inventor dessa retração, pois o mundo passou por situações assim antes. Agora, antiglobalização, antimultilaterismo e protecionismo, com os países se fechando e se relacionando somente com os que têm alianças, são temas da extrema direita, que avança em maior ou menor grau pelo mundo. No mundo rico, a expansão da imigração vem acompanhada do renascimento da xenofobia, que atribui problemas internos, como criminalidade e desemprego, aos estrangeiros, algo recorrente no mundo há séculos, inclusive no Brasil. O mais curioso é que o isolamento entre os países, e a consequente queda de comércio entre eles, em meio ao protecionismo (via cobrança de tarifas ou de regras que alegam cuidados sanitários ou ambientais), vai gerar empobrecimento e retardar o progresso nas economias pobres ou de desenvolvimento médio. O que tende a manter acesa a predisposição de suas populações para emigrar. A desglobalização torna a seleção de aliados para exportação e importação mais seletiva, deixando países considerados pouco confiáveis de fora, o que, na prática, amplia o risco de conflitos comerciais e até de guerras. Trump tem feito investidas até contra seus parceiros, mostrando que essa fratura mundial não é um processo homogêneo. Aparentemente ele tem testado o humor de antigos aliados para barganhar concessões políticas e imigratórias, mas ainda não se sabe até onde ele pretende ir. As rusgas com a União Europeia e a pré-negociação da guerra da Ucrânia diretamente com o Kremlin, fora da Organização Tratado do Atlântico Norte (Otan), assustou o continente, cujos governos enfraquecidos veem o avanço da extrema direita. Paralelamente, há o suspense de como a China vai se portar daqui para frente. Alguns analistas apontam que o país asiático pode sair com frutos, ampliando sua presença na América do Sul e África na disputa por suprimentos (minerais e alimentos) e dominando parte da Ásia. No caso do Brasil, é melhor seguir sua tradição diplomática de neutralidade e não se render a provocações ou apelar a bravatas, pois elas podem causar sérios danos comerciais e políticos.