Os números do emprego acendem sinal de alerta. Enquanto o Brasil criou 921 mil postos formais no primeiro semestre, o comércio varejista eliminou 45,9 mil vagas, o pior resultado para o período desde a pandemia. A curva descendente concentra-se em atividades intensivas em mão de obra: as lojas de vestuário e acessórios fecharam 30,9 mil postos e as de calçados, outros 11,3 mil. Os números fazem parte do mais novo levantamento divulgado esta semana pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não há uma única causa. O varejo enfrenta uma combinação perversa de fatores. Juros elevados encarecem o crédito para empresas e consumidores; o endividamento das famílias achata a renda disponível; o comércio eletrônico altera o comportamento e os hábitos de compra do consumidor e impõe às lojas físicas uma competição desigual em custos; e as bets passaram a disputar uma parcela do orçamento doméstico. Levantamento de consultorias especializadas, como a Peers Consulting, indica que 23% dos apostadores reduziram gastos com roupas e calçados para direcionar dinheiro às apostas. O resultado aparece nas vitrines, mas também nas estatísticas de emprego e é preciso perceber a dimensão social dessa crise. O comércio é uma das principais portas de entrada no mercado de trabalho, emprega jovens, mulheres, aposentados com renda mensal baixa e trabalhadores e mantém vivos centros comerciais, bairros e corredores urbanos. Uma loja que fecha não representa apenas uma empresa a menos. Significa empregos perdidos, imóveis vazios, menor circulação de pessoas e enfraquecimento da economia local. A região central de Santos é exemplo claro desse cenário e, embora haja esforços para reverter, ainda não há resultados expressivos. Diante de uma transformação tão profunda, o poder público não deveria assistir passivamente. É necessário discutir indutores para os segmentos mais atingidos, inclusive um pacote temporário capaz de reduzir o custo de manutenção das lojas físicas. Incentivos tributários, linhas de crédito para modernização e digitalização, revisão de taxas e programas de revitalização de áreas comerciais podem ajudar a diminuir a diferença de custos entre a operação presencial e o ambiente exclusivamente digital. Não se trata, porém, de preservar artificialmente modelos de negócio que perderam competitividade. O varejo também precisa fazer sua parte, porque a vitrine, agora, não está apenas na calçada, mas na tela do celular também. Integrar estoque, venda digital, retirada presencial, entrega rápida, relacionamento pelas redes sociais e uma experiência física que ofereça ao consumidor razões para sair de casa. O comércio brasileiro atravessa uma mudança estrutural, agravada por uma conjuntura econômica hostil. Deixá-lo enfrentar sozinho essa transição terá um preço alto em empregos e vitalidade urbana. Oferecer condições para mudar não é proteger o passado, mas ajudar a construir um varejo capaz de sobreviver ao futuro.