(Matheus Tagé/ AT/ Arquivo) O Ferroanel de São Paulo voltou ao debate após o Governo Federal anunciar novos estudos para viabilizar sua implantação. Ainda não há cronograma, modelo de financiamento ou previsão de início das obras. Em outras palavras, trata-se de um projeto que permanece no papel, apesar de ser reconhecido há décadas como uma das intervenções mais importantes para a logística nacional. Não se trata apenas de separar trens de carga e de passageiros na Região Metropolitana de São Paulo. O Ferroanel é uma peça estratégica para garantir competitividade ao Porto de Santos, principal porta de saída das exportações brasileiras. À medida que a produção agropecuária do Centro-Oeste segue crescendo em ritmo acelerado, a infraestrutura de transporte precisa acompanhar essa evolução. Caso contrário, o gargalo deixará de ser a capacidade produtiva e passará a ser a de escoamento. Santos continua sendo o maior porto da América Latina, mas liderança não é um ativo permanente. Ela precisa ser renovada por meio de investimentos contínuos. Outros portos brasileiros, inclusive os do Nordeste, vêm ampliando sua infraestrutura e disputando cargas antes consideradas naturalmente destinadas ao litoral paulista. A concorrência entre portos deixou de ser apenas regional e passou a ser nacional. Quem oferecer menor custo logístico, maior previsibilidade e rapidez operacional conquistará novos mercados. Nesse cenário, o Ferroanel representa muito mais do que uma obra ferroviária. Ao retirar os trens de carga da malha compartilhada com o transporte de passageiros, amplia-se a capacidade operacional do sistema, reduzem-se atrasos e cria-se um corredor mais eficiente entre o interior do País e o Porto de Santos. É um ganho para a logística, para a economia, para o meio ambiente e para a população da Região Metropolitana. Há outro aspecto frequentemente negligenciado, mas igualmente decisivo: o frete de retorno. Os vagões que chegam ao Porto carregados de grãos, açúcar e outras commodities não precisam voltar vazios. O Brasil é altamente dependente da importação de fertilizantes, insumo indispensável para sustentar a produtividade do agronegócio. Um corredor ferroviário eficiente permite que esses mesmos trens retornem ao interior transportando fertilizantes, reduzindo custos logísticos, aumentando a produtividade dos ativos ferroviários e fortalecendo toda a cadeia do agro. Projetos dessa magnitude exigem planejamento, recursos e tempo. Mas justamente por isso não podem permanecer indefinidamente na fase dos estudos. O Brasil já conhece o diagnóstico e sabe onde estão seus gargalos. O que falta é transformar projetos estratégicos em realidade. O Porto de Santos continuará sendo protagonista apenas se o País compreender que competitividade não se mantém por tradição, mas por investimentos capazes de antecipar as demandas de uma economia que não para de crescer.