(Reprodução/X) A deportação de venezuelanos, acusados de participarem da gangue Tren de Aragua, pelos Estados Unidos a El Salvador expôs uma disposição do Governo Trump de enfrentar o Judiciário americano, contrário à transferência feita com base em uma lei de mais de 200 anos. Por outro lado, o caso indicou uma colaboração entre aliados da direita, os presidentes Donald Trump e Nayib Bukele, de El Salvador. A iniciativa teve repercussão no Brasil, lembrando que o Tren de Aragua é uma organização criminosa que nasceu nas prisões da Venezuela, um fenômeno que se espalhou por aqui e em vários países latino-americanos. Antes disso, Bukele já havia atraído admiradores por sua política de governo de exceção, suprimindo garantias constitucionais, para combater um banditismo em um país cuja economia tem como principal fonte de renda externa as remessas de seus emigrados a parentes em El Salvador. Daí um dos fatores que estimulam Bukele a depender do apoio americano. Apesar do país de Bukele não ter relação direta com a gangue venezuelana, ele se dispôs a receber os deportados. O presidente de El Salvador investiu em grandes penitenciárias e, segundo reportagens, as ocupou com jovens, muitos sem julgamento ou sentenciados de forma coletiva. Sua investida o tornou popular, servindo de inspiração para políticos de países com problema parecido, que não são poucos. Bukele receberá dos EUA US\$ 6 milhões pelos venezuelanos, quantia que parece mínima para a dor de cabeça que El Salvador pode ter com esse público, como qual destino será dado a eles ao longo dos anos. Como não tem sentido um país aceitar estrangeiros perigosos, conclui-se que o salvadorenho busca visibilidade mundial e servir de exemplo, como forma de conferir credibilidade a seu regime de exceção. Ele é acusado de minar as instituições e diz ser o ditador mais legal do mundo. Outro problema é tentar transformar as prisões em massa em um show midiático, principalmente com vídeos dos presos e do centro de Confinamento do Terrorismo, com capacidade para 40 mil detentos. Com histórico de violência política e instituições fracas do país, esse sistema prisional gigante pode se tornar explosivo em caso de enfraquecimento do poder de Bukele que, por enquanto, está bem longe disso. No Brasil, a preocupação com a expansão das organizações criminosas atingiu elevadas proporções, mas o Governo Federal e os estados não chegaram a um consenso sobre como agir em conjunto. Segundo reportagens, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, deve apresentar um plano de endurecimento das penas para integrantes das facções, o que merece total apoio. Mas ele já elaborou um plano que muda algumas atribuições dos estados, que não avançou no Congresso, até agora. Com o imobilismo e a falta de expectativa de reduzir a criminalidade, o risco é que a experiência extrema de Bukele ganhe admiradores no Brasil.