[[legacy_image_262400]] A Faculdade de Medicina da USP acaba de publicar a Demografia Médica 2023, um compilado de dados extraídos das entrevistas feitas com 1.614 médicos residentes com até 35 anos. De acordo com o levantamento, 24,6% dos médicos residentes entrevistados, após o prazo de um ano, afirmaram trabalhar prioritariamente ou de maneira integral para o Sistema Único de Saúde (SUS). Cinco anos depois, essa preferência cai para 12,1%. Segundo os entrevistados, a questão financeira é importante, sim, mas pesa também a questão estrutural dos hospitais públicos em relação aos particulares, com oferta de insumos, equipamentos e tecnologia. Além disso, a falta de um plano de carreira claro e sem interferência política também pesa na hora de definir para onde ir após o período de residência médica. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A residência é uma pós-graduação em que o médico recém-formado opta por uma área de especialização que norteará toda sua carreira. Não é obrigatória, mas para que o recém-formado não se torne apenas um generalista, é o caminho adotado pela maioria dos médicos jovens. Em geral, a bolsa oferecida pelos ministérios da Educação e da Saúde são ínfimas, inferiores a R\$ 4 mil mensais, valor insuficiente para que um médico recém-formado custeie todos os seus gastos. Dentro do SUS, existem bolhas de excelência entre os hospitais públicos, como todo o complexo do Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde as vagas para residência, seja a área que for, são bastante disputadas. O conhecimento que se adquire ali em dois ou três anos de residência, em geral, é utilizado depois na rede particular, para onde vai o médico após o período obrigatório dentro do SUS. A Demografia Médica apontou esse desequilíbrio na distribuição dos residentes pelo País. A maior concentração está na Região Sudeste, com 56%. Em seguida, vêm Sul (16%), Nordeste (17%) e Centro-Oeste (8%). O Norte tem apenas 4% dos médicos residentes. Essas distorções se explicam, basicamente, pela já conhecida falta de estrutura médica dos hospitais públicos na maior parte dos estados. Para ter oferta de vaga em residência, é preciso um leque de pré-requisitos cumpridos, o que não acontece. A partir desse mapa, tem-se um cenário mais claro do que é preciso fazer não só para distribuir melhor os residentes pelos estados, como também fixá-los depois de formados nos hospitais geridos pelo SUS. A questão financeira pesa bastante na decisão de migrar para a rede particular, onde os plantões pagam até três vezes mais que na rede pública. Oferecer um plano de carreira, melhores remunerações e estrutura é o primeiro passo para fixar os médicos que até teriam preferência por trabalhar no SUS, quer por vocação, quer pela especialidade que escolheram, como Saúde da Família, uma área ainda predominantemente pública, mas que não o fazem por absoluto desestímulo e falta de perspectiva de ascensão profissional.