( Carlos Nogueira ) É digna de apoio a recente iniciativa da Autoridade Portuária de Santos (APS), que, por meio do Programa de Incentivo à Pesquisa Portuária Básica e Aplicada, acaba de credenciar dez instituições de ensino superior para atuar em conjunto com o Porto de Santos. A proposta tem méritos incontestáveis: abre as portas da maior infraestrutura portuária da América Latina à produção científica, incentiva a formação de profissionais especializados e promove a inovação em áreas cruciais como automação, segurança, sustentabilidade e logística. A iniciativa, amparada no Plano Estratégico 2023-2027 do Porto, é uma demonstração clara de que o diálogo entre o setor produtivo e o meio acadêmico pode gerar frutos consistentes. Com 16 linhas de pesquisa e foco transversal em sustentabilidade, o programa reconhece o potencial da ciência aplicada para enfrentar desafios concretos — do uso de inteligência artificial à conservação da biodiversidade. Importante destacar que esse tipo de caminho já vem sendo adotado em dezenas de países e mesmo em outras regiões, como no ABC Paulista, onde o polo universitário está bastante próximo do setor produtivo na concepção de produtos, mudança de processos e alinhamento de ensino e vida profissional. Não se pode, portanto, deixar de ponderar que essa aproximação, agora celebrada como inovadora no Porto de Santos, já deveria estar consolidada há muito tempo. A universidade, como se sabe, está assentada sobre três pilares: ensino, pesquisa e extensão. E nenhum desses pilares pode se sustentar de forma robusta sem conexões reais com a sociedade. Por isso, embora se comemore a quebra de paradigma, é inevitável lembrar que o Porto, há décadas um motor econômico da região e do País, demorou demais para se abrir ao conhecimento produzido nas instituições de ensino. Outro ponto que merece atenção é a necessidade de continuidade. Iniciativas como essa não podem depender da boa vontade de gestões específicas ou do entusiasmo momentâneo de dirigentes. Parcerias entre universidades e o setor público precisam ser institucionalizadas, com marcos legais e operacionais que garantam sua longevidade — independentemente de quem esteja no comando da APS ou das instituições parceiras. A ciência não pode ser refém de trocas políticas ou de ciclos administrativos. Se bem conduzido, o programa tem potencial para transformar o Porto de Santos em um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde o saber acadêmico se converte em soluções práticas para a infraestrutura, o meio ambiente e a vida urbana. E em caminhando dessa forma, mais recursos para investimento em bolsas de estudo e pesquisa podem chegar por meio das próprias empresas ou de fundos específicos. A experiência servirá, também, como exemplo de que investir em ciência não é luxo — é estratégia. E quanto mais cedo houver essa compreensão, menor será o preço da inércia.