A expansão do endividamento no País tem relação com a instabilidade econômica das últimas décadas, falta de educação financeira e juros altos por muito tempo. Mais recentemente, os economistas passaram a considerar como fatores para essa epidemia de famílias endividadas a introdução do Pix. Não que o meio de pagamento seja o culpado, mas que a praticidade desse sistema permitiu bancarizar milhões de consumidores, acessando múltiplos cartões de crédito e linhas de empréstimos pré-aprovados. Com a digitalização, tornando procedimentos antes burocráticos e demorados em simplificados e rápidos, o crescimento do número de consumidores com dívidas se acelerou. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 82% das famílias estavam endividadas em julho, lembrando que ter dívidas para adquirir bens de forma planejada é saudável e faz a economia girar. Porém, a inadimplência (ter contas atrasadas) chega a 30% dos consumidores, conforme entidades como a Serasa Experian e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Já o Banco Central revelou que o comprometimento da renda mensal com prestações chega a 30% da renda mensal. Como sobra pouco espaço para dar conta de gastos com a subsistência e as contas, não se sai da situação de insolvência e o calote se torna inevitável. Entretanto, dados da Serasa, em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, mostram que o endividamento é muito mais complexo do que se imagina. Assim como, há algumas décadas, endividados costumavam possuir mais de um cartão para ter vários limites, hoje 9 milhões de famílias, incluindo as de menor renda, misturam empréstimos de bancos tradicionais com os de fintechs (instituições digitais) para conseguir mais crédito. De acordo com a reportagem, em 2019, os bancos tradicionais tinham 26 milhões de inadimplentes, número que subiu 57%, para 41 milhões em julho último, enquanto as fintechs saíram de 2,24 milhões para 3,91 milhões, avanço de 75% no mesmo período. Considerando os que têm dívidas nas duas modalidades de instituições, houve uma disparada de 355%, de 1,96 milhão em 2019 para 8,92 milhões em 2026. Com estes dados, compreende-se melhor a baixíssima capacidade de consumo das famílias, a queixa generalizada de que o salário não cobre as obrigações mensais e a dificuldade das duas fases do programa Desenrola para conseguir reduzir o nível do endividamento no País. Juros mais baixos são essenciais para impedir que a inadimplência aumente, porém, somente isso não basta. São necessários critérios para diferenciar maus pagadores dos que pretendem se regularizar e cortar gastos. Contudo, o setor bancário precisa ser rigoroso com a oferta de crédito, desacelerando a disputa desenfreada por participação de mercado, e ainda aproveitando as facilidades digitais para orientar os clientes a fazer uso consciente do dinheiro.