(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Em 15 de maio de 1891, o papa Leão 13 emitiu a encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), discutindo os efeitos da revolução industrial e solicitando aos políticos para salvarem “infelizes trabalhadores da crueldade dos homens gananciosos”. Com esse documento, o pontífice publicava uma doutrina crítica às transformações tecnológicas e industriais. Agora, em meio a uma nova revolução, o papa Leão 14, inspirado em seu homônimo, assinou em 15 de maio a encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), divulgada na última segunda-feira. Trata-se de um clamor sobre a inteligência artificial, com Leão 14 defendendo uma regulação e pedindo a proteção da dignidade humana, ameaçada de perder para os robôs seus empregos, tarefas e papéis sociais. O texto embute a ideia de que a tecnologia não deve ser vista como uma força antagonista da humanidade e condena o lucro em alta escala como justificativa para sacrificar empregos. Segundo o papa, uma sociedade que garante postos de trabalho somente a uma minoria de alto nível técnico vai expor a maioria à ausência de estímulos diários, causando “empobrecimento humano e cultural”. Uma encíclica funciona como uma carta com doutrina para os religiosos e fiéis da Igreja Católica, mas também é um documento de diálogo com o mundo, inclusive os não católicos. Pode-se discordar das palavras de Leão 14, mas as preocupações levantadas pelo pontífice são relevantes para as atuais gerações e as próximas. Não se trata apenas de questão religiosa, mas também de como se deve lidar moralmente com os inúmeros usos da inteligência artificial e de seus reflexos. O desemprego em massa é uma ameaça real. Por exemplo, a gigante americana Amazon demitiu 14 mil funcionários em outubro e 16 mil em janeiro, em um movimento visto como redirecionamento de seus negócios para a nova tecnologia. O impacto da inteligência artificial tem outros contornos, desde a cobrança dos investidores dessas grandes companhias por rápidos e grandes lucros, até o uso desse conhecimento nas guerras, acelerando mortes e devastando territórios pela vitória, com potencial de exterminar o adversário militar e, se preciso, matar civis. Aliás, já se está na era do conflito remoto – basta observar os drones utilizados nos últimos dias por Rússia e Ucrânia e as mortes causadas. A encíclica levanta importantes questionamentos, mas não pode ser vista como uma inimiga do desenvolvimento tecnológico. A inteligência artificial também traz revoluções benéficas, como tratamentos de saúde mais eficientes, redução de acidentes nos transportes e preservação ambiental. Conservador ou não, o documento do papa tem o mérito de forçar cientistas, lideranças políticas e a população a discutir mudanças que já estão moldando o futuro da humanidade e até ameaçando aniquilar essa civilização, como muitos estudiosos e executivos das empresas de inteligência artificial já admitiram.