O endividamento das famílias se tornou um dos temas de campanha dos candidatos a presidente, apesar das discussões terem sido superficiais, com os adversários se concentrando nos ataques. Porém, o mesmo problema, mas entre as empresas, quase não foi explorado, o que impressiona pelo atual momento de muitas recuperações judiciais, processo que protege o requerente contra os credores e permite reestruturar os débitos. Aliás, a Serasa Experian divulgou na última quarta-feira que 9,3 milhões de pessoas jurídicas estavam inadimplentes em agosto no País, uma alta de 14,3% sobre igual mês do ano passado. Desse total, 8,8 milhões são negócios de micro e pequenos portes. O Governo Lula respondeu com a expansão do Desenrola para o setor empresarial, com a renegociação. Porém, o endividamento dos pequenos negócios não é recente e vem pelo menos desde a década passada, crescendo devido à pandemia, principalmente na área de serviços. As dívidas aumentaram mais ainda quando a taxa Selic voltou a subir, em março de 2021, atingindo dois dígitos em fevereiro de 2022. Para piorar, o Programa Nacional de Apoio às Micro e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), instituído em 2020 como socorro durante a pandemia, tem correção pela Selic, que naquela época estava em seu menor nível. Porém, o avanço da taxa acabou inflando o saldo devedor dos tomadores do empréstimo. A renegociação é uma ferramenta importante para desafogar as finanças das empresas. Porém, o Desenrola voltado às pessoas físicas mostrou que dar descontos sobre dívidas e parcelar o restante não são suficientes para diminuir o endividamento. A medida beneficia com um só instrumento os maus pagadores e os bons, mas em dificuldades. Outros endividados, de tão estrangulados, preferem não assumir um contrato com muitas prestações, talvez pela incerteza de que poderão ficar sem renda para honrá-lo futuramente. Portanto, a renegociação, ainda que bem-vinda, na prática, é um paliativo. A solução para o endividamento depende realmente de mudanças estruturais. A saída mais óbvia é conseguir derrubar a Selic para um patamar suportável, abaixo de 10% ao ano, tornando o crédito mais barato. Não é tarefa fácil, pois exige ajuste fiscal. Mas, é preciso reduzir o gasto público para desinflar o déficit das contas federais. Quanto menor o saldo negativo, menos juros o setor financeiro vai exigir do governo. É fundamental reduzir a burocracia e a carga tributária, o que também depende de diminuir o gasto público. O pequeno empresário deve aprender a administrar melhor suas finanças e ter acesso a linhas de crédito baratas e de rápida liberação para investir na produção ou prestação de serviços. As soluções já são discutidas exaustivamente pelas entidades empresariais e governos, mas elas não vão além das promessas dos candidatos e o País não consegue aplicá-las. Não dá mais para continuar assim.