[[legacy_image_191619]] Nos últimos dias, os argentinos voltaram a enfrentar mais um capítulo da crise econômica centrada no câmbio, mas piorada pela tensão entre o presidente Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner. Apesar dos fundamentos do Brasil serem bem mais robustos, o país vizinho merece ser observado a fundo, como uma lição do que não deve ser feito. Ainda mais nesse momento, no Brasil, de desrespeito às regras fiscais por motivação eleitoral e uma porteira aberta para gastar mais no próximo ano, independentemente do vencedor de outubro. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Apesar da inflação argentina, de 76% ao ano (no Brasil, 11%) não ser recente, o país vizinho também sentiu o desarranjo econômico causado pela covid-19, com a subida dos combustíveis, além de sofrer com instituições enfraquecidas e disputa política acirrada. A situação por lá é bem pior, mas é preciso admitir que os riscos são para todos. Como nas crises anteriores, a Argentina sofre com o câmbio. O dólar oficial está cotado a 134 pesos, após uma alta de 5,5% em um mês. Porém, trata-se de uma fantasia, pois o que vale mesmo é o paralelo que, segundo o jornal Ámbito Financiero, está em 272 pesos, subindo 25% em 30 dias. É uma situação bem diferente da brasileira, que possui muitas reservas internacionais – US\$ 348 bilhões (26 de abril, dado mais recente) –, o suficiente para cobrir compromissos externos, como dívidas, importações e remessas de lucro. Além disso, o País tem saldo comercial (exportações menos importações) de US\$ 33 bilhões neste ano. Por aqui, o câmbio também dá seus saltos e contamina a inflação, mas não como na Argentina e geralmente é esfriado por intervenções do Banco Central. Já a Argentina é muito dolarizada e o câmbio interfere diretamente no dia a dia do país, além do BC argentino ter poucas reservas, obrigando-o a recorrer ao Fundo Monetário Internacional. Entretanto, Fernández está em rota de colisão com Kirchner. Ela conseguiu derrubar o então ministro da Economia, Martín Guzmán, que já tentava conter as importações e tinha vetado o uso de cartão para compras parceladas no exterior para preservar as reservas internacionais. Sem Guzman, o presidente nomeou Silvina Batakis, economista avessa ao FMI. Agora no cargo, ela prometeu honrar o acerto com o Fundo, mas seu perfil esquerdista foi o estopim para a disparada do dólar e uma confusão no comércio, com uma remarcação instantânea de 20% na capital, sem os lojistas terem certeza que isso fazia algum sentido. Ontem, os jornais argentinos relatavam reuniões do governo com supermercadistas e tentativa de vender títulos públicos em pesos. O diário Clarín ironizava que Fernandez inspecionava a repavimentação de rodovia de quatro quilômetros e Kirchner inaugurava um cinema em El Calafate. Já o furacão da crise seguia com Silvina, que prometia o óbvio - rigidez fiscal. Não dá para confiar que os vizinhos sairão fácil dessa crise.