(Marcello Casal Jr. / Agência Brasil) Como já era esperado que o Banco Central subiria a taxa de juros para 14,25% ao ano, acabou ganhando destaque a promessa da autoridade monetária por um ajuste de “menor magnitude” em sua próxima reunião, em maio. Isso porque há sinais de desaceleração da economia e alguma tendência de acomodação da inflação, mas nada consolidado. Se a capacidade de consumo não arrefecer e houver algum extremo climático, como chuvas ou seca frustrando a supersafra, os preços poderão ganhar novo impulso. Na prática, o desafio do BC no combate à inflação está envolto em incertezas. Além do risco da natureza comprometer a produção agropecuária, há o Governo Trump com sua política tarifária, que pode causar muita pressão sobre os preços nos EUA, invertendo a queda dos juros naquele país. Isso se tornaria um grande problema para os emergentes, pois a subida das taxas americanas atrai capitais para os EUA. Por enquanto, o que se tem é o contrário. Os americanos estão pessimistas, apostando em recessão nos EUA, o que tornou a Bolsa brasileira atraente. As ações, no Brasil, ficaram baratas, estimulando a entrada de estrangeiros, também interessados na renda fixa, que paga dois dígitos. Mas a grande incerteza para a política do BC é o Governo Federal, que age de forma oposta à da autoridade monetária. A ideia de subir juros é retirar dinheiro da economia, causando retração. Isso reduz a demanda e alivia a oferta, derrubando a inflação. A gestão petista não acredita nesse remédio há muito testado no mundo todo. Porém, o apelo não é tanto pelo confronto de teorias e sim o do populismo, de ter resultados imediatistas para ganhar a eleição. Por isso, tornou-se essencial crescer, impactando no bolso do consumidor. Assim, o governo busca soluções para segurar os preços, cuja alta está por trás da impopularidade do presidente Lula. Sem iniciativas eficientes nesse campo, o jeito é turbinar outras soluções de efeito nas urnas, como ampliar o empréstimo consignado, afrouxar o FGTS e isentar do Imposto de Renda o ganho mensal até R\$ 5 mil. Esse pacote tem como resultado enfraquecer o esforço do BC, ampliando o período dos juros altos. Contudo, fica o risco da inflação se tornar persistente, corroendo o valor do dinheiro resultante do crescimento estimulado da economia. Esse seria um desfecho mais pessimista. É possível que o consignado seja mais usado para trocar uma dívida a juros altos por outra com mais baixos, com apenas uma parte desse dinheiro indo para o consumo. No caso do FGTS, muitos de seus recursos não podem ser liberados porque estão retidos como garantia de empréstimos. Além disso, o dólar parece ter perdido vigor, porque há expectativa de ingresso elevado da moeda no País. Mas os riscos continuam rondando o Brasil dos eternos problemas fiscais (mais gasto do que receita e dívida pública inflada por juros altos), cujas soluções vêm sendo postergadas desde o fim da hiperinflação, nos anos 1990.