(Matheus Tagé/ Arquivo AT) Pelo menos 2 milhões de trabalhadores atuavam por meio de plataformas digitais, principalmente as de transporte de passageiros e entrega de comida, no ano passado, em todo o País. Esse contingente tinha renda média mensal de R\$ 3.147 - 12% a menos do que a das demais ocupações. Apesar disso, esses 2 milhões trabalhavam 5,4 horas semanais a mais do que os assalariados. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse é o perfil da categoria que cresceu rapidamente com a expansão da economia por aplicativos, com ocupações sem a cobertura da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e muitas vezes sem contribuição à Previdência Social. Essa classe agora numerosa concorre com outras categorias, pressionando as empresas em tempos de baixo desemprego e mudança do perfil dos jovens de menor renda. Com mais acesso à informação e à tecnologia e mais anos de estudo, não estão tão dispostos a ocupar vagas em funções exaustivas ou insalubres e de reduzida chance de ascensão salarial, apontam pesquisas. Esse público não tem a proteção da CLT para poder se afastar com alguma remuneração após acidente ou doença, e os que contribuem tendem a receber aposentadorias reduzidas. Porém, o atual governo, que é o que, de fato, está se deparando com esse fenômeno do trabalho, tem dificuldade de atender as expectativas desse público, pouco interessado em sindicatos, base da fundação do PT. Por outro lado, eles estão expostos em demasia à imprevisibilidade. A legislação precisa inseri-los no sistema de proteção social estatal e deve-se pressionar as empresas dessas plataformas a adotarem algum modelo mais amplo referente a formas de remuneração e cobertura de saúde e aposentadoria. O IBGE, entretanto, derruba mitos e mostra as preferências dessa categoria. A pesquisa aponta que nove em cada dez têm as plataformas como principal trabalho. Um quarto (24,6%) atua por aplicativos por não conseguir outra ocupação, enquanto 26,8% gostam da flexibilidade de compor o próprio horário de sua atividade. Já 20,8% alegam que estão ganhando mais dinheiro do que em outras modalidades ou que têm esse vínculo digital apenas como complemento de outra renda. Porém, não se sabe como essa massa de trabalhadores suportaria uma crise econômica mais acentuada, por exemplo, com a população cortando aplicativos de transporte devido à queda da renda. Há ainda o risco do governo não conseguir reter o aumento dos preços dos combustíveis, em caso de corte de gastos públicos. Mas o que preocupa mesmo são as difíceis condições de trabalho em um trânsito congestionado e estafante, aliado à violência urbana. Além disso, são geradas novas demandas para a saúde pública, devido às muitas horas ao volante ou mais acidentados. E um questionamento já surge no horizonte: o que será desses profissionais se a automação da direção avançar a ponto de dispensar uma parcela significativa da mão de obra necessária atualmente?