Não há dúvida que o cenário de juros mais baixos beneficia o crescimento econômico no Brasil. Todos têm maior acesso ao crédito, e as menores taxas favorecem compras e investimentos, estimulando o consumo e a produção. O governo também se obtém vantagens, já que as despesas com os encargos da dívida pública diminuem de maneira sensível. Existem, porém, riscos nesse movimento. Economistas alertam que o crédito à pessoa física foi acelerado no último ano e vem crescendo acima da média histórica. Isso pode trazer problemas, uma vez que o endividamento das famílias segue alto, em um cenário de deterioração dos indicadores de inadimplência e lenta recuperação do mercado de trabalho. Levantamento realizado pela XP Investimentos mostrou que a carteira de crédito para indivíduos atingiu o recorde de 27,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em outubro. Durante a recente crise, os bancos foram mais seletivos quanto à concessão de crédito, enquanto caiu a demanda das pessoas em razão do desemprego e do alto comprometimento de suas rendas com o pagamento das dívidas. Mas, agora, com o ciclo de queda da taxa de juros promovido pelo Banco Central, o cenário mudou: os principais bancos passaram a emprestar mais, respondendo à demanda crescente dos indivíduos. A recuperação econômica é fato no país, mas ela segue em ritmo lento. O mercado de trabalho não tem reagido de maneira significativa – a taxa de desemprego nacional foi de 11,6% no trimestre móvel encerrado em outubro, praticamente a mesma de igual período do ano passado (11,7%). As preocupações são que o maior volume de crédito concedido tem sido destinado a famílias já altamente endividadas. Segundo o Banco Central, em setembro, 44,7% da renda anual dos brasileiros estava comprometida com dívidas. O indicador tem viés de alta agora, após ter caído para 41% em janeiro do ano passado, e aproxima-se do recorde de 46,8%, registrado em abril de 2015. A parcela da renda mensal usada para pagamento de amortização e juros estava em 20,6% em setembro, acima dos 19,8% verificados 12 meses antes. Deve ser destacado que, apesar da queda da taxa básica de juros da economia, o mercado cobra valores bem mais altos. A taxa média para indivíduos situa-se atualmente em 49,7% anuais, pouco abaixo dos 52% cobrados no ano anterior. Mesmo com o crescimento da economia de 2% em 2020, gerando mais empregos, as estimativas são de avanço do endividamento das famílias em relação à renda de 2 pontos percentuais, chegando a 56%, enquanto o comprometimento da renda mensal deve subir de 28% em 2019 para 28,3% no próximo ano, evidenciando que a situação é preocupante. Recomenda-se, portanto, cautela e prudência dos consumidores em relação a compras, principalmente parceladas, evitando o endividamento excessivo.