[[legacy_image_308356]] A missão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é das mais ingratas. Além de registrar quatro meses de queda de arrecadação, algo trágico para um governo cuja sustentação é o gasto com programas sociais, sua meta de déficit zero foi descartada na semana passada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na última segunda-feira, Haddad, questionado em uma entrevista coletiva para desfazer o impacto da fala de Lula, disse que tem sua própria “meta estabelecida”, o que não conseguiu desfazer a impressão de descompromisso do Palácio do Planalto com a austeridade fiscal. Se do lado político não há grandes novidades – a esquerda continua questionando a ganância do capital e a direita e centro criticam a gastança de dinheiro público –, na área financeira a perdedora é a sociedade. Com as incertezas do cenário fiscal que se firma (recuo de receita e aumento da despesa pública), o mercado deu sua respostana segunda. O dólar subiu (muita gente comprando moeda porque acha que ela vai passar a valorizar), os juros futuros também avançaram (porque a política do governo não vai deixar as taxas caírem como se esperava) e a Bolsa caiu, pois o câmbio e os títulos mais atraentes vão dificultar a vida das empresas. Do alto da experiência de seu terceiro mandato, Lula já sabe como o mercado reage a seus anúncios e como é importante manter algum ajuste fiscal para os capitais privados fluírem ao governo (pois este tende sempre a gastar mais do que arrecada) a juros em níveis que não façam o País mergulhar numa crise financeira. Porém, os tempos mudaram e a política está polarizada entre esquerda e uma direita mais conservadora, com um Centrão cobrando cada vez mais caro por apoio a um presidente que ideologicamente nada tem a ver com esse bloco. Portanto, para Lula, é fundamental manter seu eleitorado coeso, cumprindo promessas eleitorais, com foco no social, o que amplia as despesas da União. O cenário de polarização é bem compreendido pelo mercado, que é pragmático. Os capitalistas estão aí para ganhar dinheiro e precisam definir o custo de suas operações, do crédito aos ativos (ações, dólar, títulos públicos e privados). Quando o governo indica que vai gastar mais, mas a receita não ajuda, é sinal de que tomará mais dinheiro emprestado. Hoje, o nível de endividamento líquido público já é dos mais elevados, de 60% em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Quanto maior o risco do setor público não conseguir controlar suas contas, mais o mercado vai cobrar para comprar os títulos do Tesouro. Se as taxas desses papéis sobem, é menos dinheiro irrigando a Bolsa, ao mesmo tempo em que os juros do crédito também sobem. Não há agora uma situação de colapso nem recessão, pois o PIB indica tendência de crescimento, ainda que modesto, para o próximo ano. Mas, observando-se a história do País nas últimas décadas, o desequilíbrio fiscal é sempre um risco e com ele não se pode brincar.