( Lauren Bishop ) O número de mortes confirmadas por dengue no Brasil neste ano já supera a soma de óbitos nos oito anos anteriores, segundo levantamento feito com base em informações do DataSUS até o último dia 9. Foram 5.873 mortes em decorrência da doença, número bem superior ao total de vítimas fatais entre 2016 e 2023: 4.992. São Paulo e Minas Gerais tiveram mais mortes, 1.964 e 1.117, respectivamente. Os números podem estar subdimensionados, já que há uma estimativa de que para cada caso que entra no sistema como confirmado, há pelo menos três que não ingressam, o que gera distorção no momento de estabelecer uma radiografia mais próxima da realidade. Especialistas reconhecem que houve avanços no combate à dengue no País, como as vacinas, mas que a escalada dos casos exigiria um volume muito maior de investimentos. A dengue teve seus picos mais dramáticos registrados no Brasil no início dos anos 2000, quando quase todas as prefeituras e estados intensificaram as campanhas de conscientização, alertando para que não se acumulasse água parada e para a limpeza de terrenos e áreas abandonadas, onde qualquer o acúmulo de água da chuva é criadouro nato para o Aedes aegypti, mosquito que transmite os vírus da dengue, chikungunya e zika. Algumas questões relacionadas à nova alta de casos devem ser consideradas, como a falta de água e de coleta de esgotos. Em geral, em localidades onde a oferta de água é mais baixa, há a prática de acumular o líquido para os momentos de escassez, o que proporciona criadouros fáceis para o Aedes aegypti. Cidades onde o esgotamento sanitário é precário também estão associadas a baixa urbanização, áreas alagadiças e próprias para a proliferação não só de mosquitos, como de outros vetores de doenças. Há muito se fala sobre a necessidade de ampliar a oferta de recursos em água e saneamento como condição primeira para a saúde pública. Os dados têm mostrado que esse não é apenas um conceito, mas uma relação clara de causa e efeito. Outra questão normalmente negligenciada quando o tema é o aumento de casos de dengue é a relação com as mudanças climáticas. O aumento da temperatura está diretamente relacionado ao regime de chuvas seguido de extremos de calor, proporcionando condições adequadas para a proliferação do mosquito. Esses são dados e relações que inexistiam quando a dengue ganhou espaço nos assuntos de saúde pública, mas que agora podem e devem auxiliar na tomada de decisões por parte do poder público em todas as suas esferas. Pesquisadores que lidam com arboviroses têm alertado para o surgimento ou ressurgimento de doenças até então sob controle, como consequência de mudanças dos hábitos de vida e do clima. Essa é mais uma das demonstrações claras de que a Ciência pode e deve ser usada a favor da tomada de decisões com base sólida e preventiva.