[[legacy_image_321693]] O Brasil encerra o ano com o registro de 2,9 milhões de casos de dengue, mais da metade dos 5 milhões em todo o mundo, conforme A Tribuna publicou na terça-feira (26). A liderança reflete as dimensões continentais do País, o clima mais quente, más condições sanitárias e a falta de educação de parte da população de não destinar o lixo corretamente. Mas, principalmente, as falhas dos sucessivos governos dos diferentes entes da federação, que não conseguiram evitar a multiplicação do inseto. Bastava ter impedido a formação do criadouro do Aedes aegypti para que a doença fosse derrotada. Agora, com a subnotificação, pois é provável que o número de infectados no Brasil seja bem maior, há ainda 1.474 registros da forma hemorrágica, o que equivale a apenas 0,05% do total oficial, mas mesmo assim um quadro preocupante pelo potencial de evolução grave da doença. Além disso, fica sempre o risco dessa modalidade avançar para patamares mais elevados, o que seria uma tragédia para a saúde pública. Aliás, recentemente, o tipo 3 do vírus foi registrado, depois de 15 anos, no Interior - são quatro tipos e a cada infecção a doença poderá se manifestar mais gravemente. Impressiona a capacidade do mosquito de resistir às políticas de eliminação e a adaptação para sua sobrevivência, assim como o inseto se beneficiou das mudanças climáticas. Na época em que o mosquito voltou a ser registrado no Brasil, nos anos 1990, em regiões costeiras e mais quentes, como a Baixada Santista e Rio de Janeiro, o clima mais ameno da Capital e de estados da Região Sul funcionavam como uma barreira à propagação do inseto. Hoje, ele não só está presente em quase todo o País, mas já é encontrado em metrópoles mundiais de baixa temperatura, como Nova Iorque, Tóquio e Paris. A transmissão local é verificada em países antes livres do Aedes aegypti, como França, Itália e Espanha. A resistência do mosquito e a força de sua adaptação também preocupam pela capacidade de transmitir não apenas a dengue, mas também zika e chikungunya, que são extremamente graves e tendem a ganhar escala com as mudanças climáticas. Para a saúde pública, trata-se de um risco generalizado, pois projeções, por outros motivos, indicam a expansão da malária e leishmaniose tegumentária e visceral – o problema será lidar simultaneamente com doenças em um país tão grande e com populações pobres e vulneráveis. A decisão do Governo Federal de integrar a Qdenga, vacina contra a dengue, ao Sistema Único de Saúde (SUS) é um passo audacioso contra a infecção – um risco seria reduzir o combate à proliferação do inseto, que dissemina outras doenças. Nova no mercado mundial, a Qdenga ainda é cara e, por enquanto, será ministrada para regiões e públicos específicos. Ainda não está definido se Santos será contemplada de início. O ritmo desse avanço vai depender da contenção inicial da doença e da verba destinada para esse fim.