(Marcello Casal Jr/Agência Brasil) A deflação de 0,02% em agosto, uma surpresa, foi uma excelente notícia para a equipe econômica e o País, mas não o suficiente para descartar uma subida dos juros básicos no próximo dia 18, talvez dos atuais 10,5% ao ano para 10,75%. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) veio negativo devido à alimentação e bebidas e habitação (que embute a energia), este último recuando devido às contas de luz. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Porém, os economistas viram esse movimento como pontual. O próximo IPCA incluirá o impacto da bandeira vermelha 1, cobrada a cada 100 kWh consumidos ao mês, e que ainda poderá ser ampliada se a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) adotar o patamar 2 dessa tarifa, ainda mais cara, caso os reservatórios das hidrelétricas continuem recuando – a seca indica que isso deve piorar. Por outro lado, já há um aumento dos alimentos relacionados à importação, sob efeito do dólar. Por isso, analistas entrevistados pelo jornal Valor já contabilizam um ponto percentual no IPCA deste mês, a ser divulgado em outubro. Tal impacto seria atenuado se os combustíveis ficarem mais baratos, pois o mercado acredita que a Petrobras logo reduzirá seus preços devido ao petróleo, que nesta semana sofreu o abalo de mais um forte sinal da desaceleração chinesa. O tipo brent estava contado ontem a US\$ 70 – há um mês custava US\$ 82 (queda de 14%). A lógica por trás das apostas do mercado no avanço inflacionário está no crescimento forte da economia, de 1,4% no segundo trimestre – se este percentual fosse projetado como expansão anual, seria de 5,7%. A conclusão é que essa pressão sobre a demanda puxará para cima o IPCA, mas economistas dizem que isso ainda não está claro nos núcleos de preços considerados pelo Banco Central para definir a Selic. O problema é que há alguns meses várias categorias estão acima dos níveis desejados para o BC atingir o teto da meta de inflação de 4,5% ao ano. O IPCA já está perto disso, em 4,24%. Pelo menos não há uma catástrofe inflacionária à vista, o que não pode ser motivo para displicência, devido à facilidade com que a sociedade incorpora altas de preços no Brasil. Segundo os economistas, mesmo com o IPCA de -0,02%, por ter sido pontual e não significar ainda uma nova tendência, a expectativa é que a Selic tenha quatro subidas seguidas de 0,25 ponto percentual, atingindo 11,5% em janeiro. Portanto, será um ciclo de alta mais curto e menos acentuado, mas com o agravante de que a taxa básica já é elevada. Setores que dependem de crédito, como varejo, habitação e pequenas empresas, devem sofrer. Não a ponto de trazer a recessão de volta, mas mantendo um crescimento mais moderado que o atual. É preciso monitorar as contas públicas, que continuam deterioradas e cujo custo de financiamento tende a puxar os juros e o dólar para cima. O temor é o presidente Lula tentar expandir seus programas além das possibilidades com vistas à eleição de 2026.