[[legacy_image_149618]] Já era esperado um retorno muito difícil das crianças às escolas neste mês, mas uma pesquisa da ONG Todos Pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua do Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE), mostra um quadro mais grave. Em dois anos, compreendendo quase todo o período da pandemia, o número de crianças de 6 e 7 anos que não sabem ler aumentou 66,3% no País. Em 2019, o percentual dos estudantes não alfabetizados dessa faixa etária passou de 25,1% para impressionantes 40,8% - avançando de 1,43 milhão de alunos nessa condição para 2,39 milhões no mesmo intervalo. Por classes de renda, a situação se deteriora. Entre os estudantes de 6 e 7 anos de famílias classificadas como mais ricas, o percentual dos que não sabiam ler subiu de 11,4% em 2019 para 16,6% em 2021. Entre as de baixa renda, variou de 33,6% para 51% no ano passado. Portanto, a cada duas crianças pobres nesse início no Ensino Fundamental, uma ainda não está alfabetizada. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Os dados da Todos Pela Educação revelam que o ensino básico, que já não ia bem, piorou, com possibilidade elevada de disseminação de problemas de aprendizagem para os próximos anos devido ao ingresso escolar sem a formação inicial esperada. Durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, a meta era garantir escola para todas as crianças, mas o salto qualitativo que deveria ter sido buscado nas décadas seguintes ficou bem abaixo do esperado. Desde os anos 1990 e 2000, a imprensa e os especialistas em ensino já alertavam para os alunos que avançavam pelos anos escolares sem dominar a escrita e a matemática. Além do baixo investimento em educação costumeiro no Brasil, a falta de planejamento está por trás dos resultados decepcionantes, que agora são ampliados pela dificuldade de levar as aulas às crianças na pandemia. Segundo a ONG, 80% dos estudantes do Ensino Fundamental estão em escolas municipais, indicando para onde deve ir o esforço da alfabetização dos 6 e 7 anos. Mas estados e União têm importantes estruturas de gestão e de distribuição de verbas, além de acesso aos mais modernos métodos de aprendizagem e precisam melhorar o suporte às prefeituras, sempre cobrando resultados. As experiências da pandemia, como o ensino remoto, precisam ser aproveitadas. Mas ainda há um sério problema do acesso do ensino público à tecnologia. Muitas crianças passaram esses dois anos sem aulas porque não tinham celular ou conexão com internet. No mesmo período, o governo, para reduzir custos, retardou a destinação de recursos a um importante programa de acesso das escolas à internet e recentemente vetou verbas para transporte escolar rural. Os professores merecem o aumento salarial de 33%, mas ele devia ter sido liberado no contexto de um amplo programa de apoio à educação básica. Esse dever de casa ainda está longe de ser feito no País.