[[legacy_image_301604]] O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei do programa Desenrola, que renegocia as dívidas da população com garantia do Tesouro Nacional. Entretanto, as atenções estavam voltadas para outra parte do projeto, aprovado no Senado na segunda-feira - as regras do financiamento por cartões de crédito e o parcelamento em prestações iguais, que se tornou uma grande polêmica entre comerciantes e bancos. O Desenrola ganhou grande relevância devido ao endividamento da população e às elevadas taxas de juros. Nesse mercado abalado pela inadimplência, o destaque fica com o rotativo do cartão, linha usada quando se paga apenas uma parte da fatura do cartão e que tem taxa de quase 450% ao ano, das mais altas do setor. Neste caso, se o cliente permanecer por mais 30 dias no rotativo, na próxima fatura ele será automaticamente encaminhado para um financiamento parcelado, que também é muito caro, com juros acima de 200% ao ano. Mas isso não resolve o problema do endividado, que se não estiver inadimplente poderá usar o limite de outros cartões. Também há o risco de se estar com a renda comprometida com outros créditos, como o consignado, e financiamentos do carro ou da casa própria, e com contas do crediário, luz e telefonia se acumulando. A lei limitou os juros do rotativo a 100% da dívida, regra que vai valer se o setor financeiro não der uma alternativa ao teto definido pelos parlamentares. Foi uma forma dos políticos escaparem da crítica da intromissão no mercado, que costuma cobrar juros mais altos se o risco aumenta. Mas qual seria a solução? Uma taxa de 99% ou menos, de 90%? Isso não vai fazer grande diferença, pois esse consumidor, ao não pagar por completo sua fatura do cartão, provavelmente já estará em apuros. Se ele ainda depender de mais crédito, terá que buscar outras opções no mercado. Economistas acham que o rotativo, estigmatizado e limitado por uma lei, poderá cair em desuso. Na mesma lei, os deputados optaram por não interferir no parcelamento sem juros, apontado por analistas como foco do endividamento por comprometer a renda por uma período prolongado. Na prática, economistas dizem que ela embute um custo financeiro, pois o lojista, por exemplo, adquire a mercadoria, mas recebe do cliente o pagamento ao longo de vários meses. Porém, com uma fatia considerável da população de baixa renda, não parcelar ou limitar prestações seria condenar esse consumidor a não conseguir comprar bens caros para ele, como TV e computador. Fases longas de juros altos, instabilidade econômica que causa demissões e, portanto, atraso das contas, e falta de educação financeira estão por trás dessa explosão de endividamento e inadimplência. Agora há uma chance de corrigir as graves distorções do mercado de crédito e fazer com que, de uma forma saudável, milhões de consumidores passem a usar o financiamento de forma consciente.