O avanço das bicicletas elétricas nas cidades da Baixada Santista é um fenômeno irreversível e, sob muitos aspectos, desejável. Em um contexto de mudanças climáticas, incentivo à mobilidade sustentável e busca por alternativas ao trânsito congestionado, ampliar o uso da bicicleta, seja convencional ou elétrica, é uma política que deve ser estimulada. No entanto, como toda transformação acelerada, ela traz por tabela desafios que não podem ser ignorados. O principal deles já está evidente nas ciclovias da região, especialmente em Santos: o convívio cada vez mais tenso entre diferentes modais. Bicicletas tradicionais, bicicletas elétricas, patinetes, patins e até pedestres disputam o mesmo espaço. Essa convivência, que deveria ser harmônica, tem sido marcada por um problema recorrente: o excesso de velocidade. Bicicletas elétricas, muitas delas fora dos padrões definidos pela legislação federal, seguem trafegando em velocidades incompatíveis com o ambiente das ciclovias, projetadas para um uso mais seguro e compartilhado. O resultado é o aumento do risco de acidentes, sobretudo em trechos mais movimentados, como a orla, onde o fluxo se intensifica significativamente nos fins de semana e feriados. Santos, nesse cenário, tem dado passos importantes ao regulamentar e intensificar a fiscalização do uso desses veículos. A iniciativa de estabelecer limites mais claros, diferenciar bicicletas elétricas de ciclomotores e, sobretudo, realizar operações de controle é um avanço que merece reconhecimento. No entanto, a efetividade dessas medidas depende de um fator essencial: a constância. Fiscalizar apenas de forma pontual não é suficiente. É nos períodos de maior movimento, como finais de semana de tempo firme, que a presença do poder público precisa ser ampliada. A sensação de ausência de controle alimenta abusos e compromete a segurança de todos. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que a legislação ainda pode evoluir. Um ponto que merece atenção é o uso de capacetes. Embora não seja obrigatório para bicicletas convencionais, o aumento de velocidade proporcionado pelas versões elétricas impõe um novo patamar de risco, que precisa ser considerado com mais rigor pelas normas. O desafio, portanto, não é conter o avanço das bicicletas elétricas, mas organizá-lo. Estimular seu uso é uma decisão acertada do ponto de vista ambiental e urbano. Mas isso não pode ocorrer à custa da segurança. Como toda mudança de comportamento coletivo, a adaptação exige regras claras, campanhas educativas e, sobretudo, fiscalização efetiva. Coibir excessos, corrigir distorções e aprimorar a legislação são medidas indispensáveis para que a mobilidade sustentável avance sem retrocessos. A Baixada Santista, que sempre foi referência em qualidade de vida e uso de espaços públicos, tem a oportunidade de transformar esse desafio em exemplo. Para isso, é preciso agir agora com equilíbrio, responsabilidade e firmeza.