Segundo o IBGE, alta de 1,2% se refere ao varejo restrito, que é o comércio tradicional, como supermercados (Alexsander Ferraz/AT) Sem o devido destaque por coincidir com assuntos tão relevantes como reforma tributária e dólar, o desempenho do comércio em maio não recebeu atenção à altura. O dado, levantado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta a quinta alta mensal seguida, desta vez de 1,2% na comparação com abril. Além do percentual robusto, houve mais uma vez descompasso entre as previsões dos economistas, mais comedidas, e o resultado obtido. De acordo com o jornal Valor, os analistas esperavam, por exemplo, avanço de 4,2% sobre igual mês de 2023, mas o IBGE registrou 8,1%. Ao invés de 1,2% na relação de maio sobre abril, a aposta média era de queda de 0,5%. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa alta de 1,2% se refere ao varejo restrito, que é o comércio tradicional, como supermercados. No caso de varejo ampliado, que inclui venda de veículos, peças e motos e material de construção, o aumento foi menor, de 0,8%, mas também consistente. O que importa é que o desempenho está relacionado aos segmentos mais dependentes da renda do que do crédito, importante para setores de produtos de maior valor e que tendem a ser financiados. Houve ainda até o efeito inesperado da tragédia gaúcha, que ajudou o comércio com o consumo acentuado de itens essenciais para fins de doação, conforme registrou o IBGE. Essa expansão mais do lado dos salários é reflexo da retomada do mercado de trabalho, com desemprego de 7,1% em maio, que já ficou em 14% entre 2020 e 2021. Além disso, há a política de recuperação do poder de compra do salário mínimo e a expansão dos benefícios sociais, principalmente do Benefício de Prestação Continuada (BPC), voltada aos idosos e pessoas com deficiência mais pobres. São recursos que chegam primeiro ao comércio para consumo de itens essenciais, como alimentos. Mas o crescimento da renda tem o efeito mais temido, que é a pressão do aumento do consumo sobre a capacidade produtiva do País, que, se sabe, não é das melhores. Isso traz risco de inflação, o grande problema brasileiro desde os anos 1980. Por enquanto, isso não se dá de forma contundente, apesar de haver muitas preocupações do Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado do BC, que define a taxa Selic, estabilizada em 10,5% – imaginava-se que ela recuaria para 9% ainda neste ano, o que não deve acontecer. É possível que este patamar da Selic seja responsável pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 0,21% em junho, mais um indicador que veio melhor do que o esperado pelos economistas, que previam 0,32%. Porém, o impacto de um consumo muito forte ainda poderá se revelar nos próximos meses, o que não permite festejos. De concreto, o governo precisa conter seus gastos, com o efeito de reduzir a injeção de recursos na economia. Por outro lado, a austeridade, no médio prazo, ajudaria a reduzir os juros, que tanto travam o desenvolvimento do País.