Foto ilustrativa (Reprodução Instagram/Donald Trump) O tarifaço de 50% do presidente americano Donald Trump sobre o Brasil passou a valer ontem de madrugada para mercadorias embarcadas a partir da 1h01. Apesar de algumas notícias, empresários, integrantes do Governo Lula e o próprio Trump terem aventado alguma negociação, efetivamente ela não ocorreu. Por trás disso está a principal justificativa de Trump para o Brasil, ao lado da Índia, pagar a maior taxa do mundo – o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de estado. Os EUA tendem a enfrentar inflação, por exemplo, com carnes e café, mas Trump aceitaria esse ônus para testar o quanto o Brasil suporta sua pressão. O presidente Lula descartou ontem conversar com o republicano por temer ataques e impacto político disso, mas é um risco que ele deveria correr para forçar uma negociação. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Apesar da preocupação do governo e dos exportadores, o impacto da política tarifária não deve ser avassalador sobre o País, como no caso mexicano ou canadense. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que essa medida afeta 4% das exportações brasileiras e economistas estimam que ela vai tirar entre 0,3% e 0,6% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Mas o problema é que terá reflexos mais contundentes em alguns setores, cidades ou empresas menores, que, por seus portes reduzidos, não têm como suportar queda de receita nem estrutura para substituir clientes no curto prazo. Um dos casos difíceis é o do Ceará, que teve apenas 1% de suas exportações isentas (em São Paulo são 44%). Para piorar, o estado manteve 45% das suas vendas externas destinadas aos EUA (São Paulo, 19%), segundo o jornal Valor. A perda do Ceará é social, pois seu pescado exportado aos EUA sustenta milhares de famílias. É esse público que deve ser contemplado pelo plano de contingência. Sem negociação, o que se teve foi uma concessão, com isenção para 694 itens, que em geral não podem ser produzidos pelos EUA ou são complementares a negócios americanos. A “bondade” não foi total, pois a tarifa original de 10% foi mantida para esses produtos, como suco de laranja, petróleo, celulose, minerais e madeira. Mas frutas, café, cacau, soja, carnes, frango, pescado, etanol, açúcar e calçados receberam o adicional de 40%, chegando aos 50%. Segundo a imprensa americana, as companhias do país, por enquanto, evitam repassar a sobretaxa ao consumidor. Por outro lado, os exportadores ainda podem dar descontos para não perder a clientela. Mas o problema é que os outros países estão com alíquotas entre 15% e 25%, com as quais os brasileiros não conseguirão competir. O que mais preocupa os exportadores, inclusive os que tiveram isenção, é que Trump é imprevisível e poderá tomar mais medidas restritivas. O agronegócio teme sofrer alguma nova sanção por importar fertilizantes da Rússia, que também vende diesel ao Brasil. No fim das contas, a incerteza continua tirando o sono do comércio exterior, não só o brasileiro.