[[legacy_image_267070]] A reclamação do presidente Lula de que o carro zero no Brasil está muito caro faz todo sentido, mas sua ideia de lançar um veículo popular por R\$ 50 mil, considerado irreal por analistas, exige vários entraves a serem resolvidos. No fim das contas, o Palácio do Planalto deverá conceder algum benefício fiscal mais linhas de crédito, talvez dos bancos estatais. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Porém, apenas com esses dois pontos já há dificuldades. O setor público enfrenta sérios problemas fiscais para sustentar os programas sociais dos mais pobres – haverá espaço para isentar esse consumo das classes intermediárias? E há ainda o endividamento, com 70 milhões de maiores de 18 anos com contas atrasadas no País e que não têm a mínima condição de pedir financiamento. Hoje, os carros mais baratos custam ao redor de R\$ 69 mil, que são Fiat Mobi, Renault Kwid e Citröen C3, mas os preços dos outros modelos se aproximam de R\$ 140 mil. Por isso, muitos consumidores preferem comprar os usados, cujos preços também subiram devido às dificuldades das montadoras para obter componentes semicondutores (microchips) e manter as entregas em dia. O discurso de alguns executivos das empresas do setor é de que o consumidor brasileiro não aceitará retroagir e comprar um carro popular, o que pode ser, do lado corporativo, uma indisposição de reduzir custos e lançar modelos com preços competitivos. Na verdade, a febre das SUVs se mostrou muito cara ao bolso do brasileiro após a pandemia, com juros altos, desemprego e inadimplência. As SUVs representam quase metade dos emplacamentos, o que explica os altos preços no País. Se não forem lançadas alternativas mais em conta, o presidente Lula está certo em demonstrar preocupação, pois a indústria automobilística tende a encolher. Segundo analistas, hoje ela produz muito abaixo de sua capacidade, indicando alta ociosidade de suas máquinas, um veneno para a lucratividade dessas empresas e sinal de mais fábricas fechadas e demissões de mão de obra especializada. Entretanto, o carro barato não depende apenas da vontade das montadoras de cortar custos. O peso dos impostos supera os 30% e há ainda muitos componentes de segurança e de redução de impacto ambiental que são obrigatórios. As autoridades, sejam do lado tributário ou de meio ambiente, não vão abrir mão desses quesitos. Também é previsível que uma montadora não queira associar seu nome a um modelo poluente ou que reduz a segurança dos motoristas e passageiros. Mesmo que sejam feitos esforços pontuais, tirando aqui e ali algum componente, o analista da Bright Consulting, Cássio Pagliarin, duvida que se conseguiria uma queda de preço de R\$ 20 mil. Após essas análises, entende-se que os preços dos carros refletem a falta de competitividade brasileira mais o encarecimento dos insumos em meio à pandemia e guerra da Ucrânia e também aos custos de uma supersafra de alta tecnologia implantada nos veículos.