(Matheus Tagé) Há um fator bastante positivo na proposta apresentada esta semana pelo vereador santista Allison Sales (PL), de destombamento dos canais de Santos para eventuais ajustes que minimizem alagamentos nas vias públicas e assoreamentos constantes: colocar em debate os fatores que levam às enchente e encontrar caminhos que atenuem os prejuízos não só às estruturas da Cidade mas também ao dia a dia do cidadão e à economia local. Só por essa provocação já vale a pena se despir de preconceitos e reunir em um debate sério e propositivo todos os personagens que possam contribuir para o encontro de soluções. Destombar os canais, construídos pelo sanitarista Saturnino de Brito há mais de 100 anos, certamente não deve ser a providência primeira. Há muitas outras interfaces e questões técnicas que devem anteceder essa decisão e, por isso, é preciso que nessa mesa de debate estejam as pessoas certas, desprovidas de ideologias que não contribuem em nada para o encontro de soluções: os técnicos que estudam mudanças climáticas e o regime de chuvas e marés, a Sabesp para explicar os motivos pelos quais há extravasamentos de esgoto, os engenheiros da Prefeitura que mostrem as providências tomadas para punir quem faz ligações clandestinas da rede de esgoto nos canais e, por que não, historiadores que cuidam do patrimônio histórico para que ponderem o que, de fato, pode ser feito em obras antes de se pensar em destombamento. Começar esse debate pelo destombamento de uma estrutura característica da paisagem urbana, rodeada de árvores que trazem conforto térmico pela flora intensa, ponto de referência histórica e turística não encontrado em nenhuma outra cidade do País é antecipar um debate de forma desnecessária e imprudente. Anos atrás, vale lembrar, também se cogitou o destombamento para que, sobre as estruturas dos canais, fossem criadas mais vagas de estacionamento para dar conta da frota crescente da Cidade. A reflexão deveria ser outra: como reduzir a dependência do carro e aumentar a adesão ao transporte público em uma cidade plana, de 39 quilômetros quadrados e uma das maiores frotas de veículos do País. O vereador está correto em fazer a provocação, esse é o papel de um legislador que olha a Cidade sob a ótica de que é preciso encontrar saídas para os problemas crônicos que, dia após dia, afligem o santista. No entanto, a tomada de decisões exige cautela, tecnicismo, análise de dados e seriedade com os fatores que causam o problema dos alagamentos. Já há tecnologia disponível e pessoal especializado para trazer luz a essa avaliação, não com base em ‘achismos’ e suposições, mas embasados em estudos sérios, realizados muitas vezes dentro das universidades e nos centros de excelência das empresas públicas. Que a provocação do vereador sirva menos para soluções imediatistas e mais para o início dessa discussão séria e responsável.