(Pixabay) Da sua fundação em 2009 como bloco dos cinco emergentes (países de maior potencial de crescimento) – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – o Brics corre o risco de se tornar uma aliança antiocidental, o que foi simbolizado por sua última cúpula, nesta semana em Kazan, na Rússia. A lógica inicial do Brics era mais econômica, de grande oportunidade para os investidores internacionais e de prosperidade para seus habitantes, o que na prática se confirmou na China e Índia. Agora, o Brics tem contornos mais geopolíticos. O Brasil defende o Sul Global, que contesta a supremacia das potências, o que a rigor China e Rússia também são. A China se esforça por se tornar a mais influente do bloco, com seu peso econômico e o yuan virando alternativa ao dólar. A Rússia busca romper as sanções, com Vladimir Putin falando abertamente nesta semana em criar sistema paralelo ao Swift, que facilita as transações financeiras mundiais e que foi usado para isolar Moscou. No fim das contas, Rússia e China é que procuram tornar o Brics instituição de confronto com o Ocidente. No Governo Lula, é possível que ideologicamente muitos concordem com isso, mas a tradição brasileira é da neutralidade (sem alinhamento). Bem diferente do que pautar as relações externas apenas com temas caros ao Ocidente – já o petista busca exposição internacional a questões relacionadas a sua trajetória política e pauta de governo, como combate à fome. Muita gente viu com pessimismo ou má vontade a última cúpula do Brics. Porém, em cúpulas, por trás dos líderes trabalham anonimamente diplomatas dos vários países, com possibilidades comerciais. Não se deve esquecer que a China é responsável por um terço das exportações brasileiras e precisa ser bem tratada. A Índia também, pela situação contrária – é o sexto maior produto interno bruto do mundo e com poucos negócios com o Brasil. O país confronta a China, mas é neutra na disputa da Rússia com o Ocidente, e tem trânsito entre americanos e europeus. A cúpula do Brics foi bem curiosa por expor o troco do governo petista a seus antigos aliados, a Venezuela e Nicarágua, que esnobaram Lula e acabaram sendo vetadas pelo brasileiro. Mas ainda não se sabe no que o Brics vai se tornar daqui para frente, lembrando que o Brasil vai assumir sua presidência em janeiro. Egito, Etiópia, Emirados Árabes, Irã e Arábia Saudita são novos sócios, enquanto 13 foram convidados, como Cuba e Belarus, isolados no globo, Turquia, Vietnã, que rivaliza economicamente com a China, e Nigéria, prevista para contar com a terceira maior população do mundo. Há ditaduras, párias, autocracias e empobrecidos ingressando no Brics, mas é preciso compreender que transição energética, mudanças climáticas e expansão populacional da África e envelhecimento no Hemisfério Norte vão transformar o mundo. Quem sabe o Brics ajude o Brasil a potencializar suas vantagens e a superar as dificuldades.