(Alexsander Ferraz/ AT) Nada como uma provocação ou um desafio histórico para levar a um esforço para se superar, contrariando até os dogmas que se seguia. Pois este foi o efeito que o tarifaço teve sobre o Brasil para o País sair da acomodação com seus tradicionais parceiros – China, União Europeia, EUA e Argentina – e buscar novos destinos. Conforme a balança (exportações menos importações) no acumulado do ano até agosto, o Brasil atingiu saldo de US\$ 55 bilhões, alta de 28% sobre igual período de 2026. O Governo Lula previa um superávit de US\$ 72,1 bilhões, elevado agora para US\$ 90 bilhões. Se confirmado, estará atrás apenas do recorde de US\$ 98,9 bilhões, em 2023. Dessa forma, o Governo Lula acertou ao seguir a recomendação dos exportadores de não partir para o confronto com a Casa Branca, evitando reações duras dos EUA. Entretanto, alguns setores não escaparam das isenções, como calçados, vestuário, máquinas, etanol e açúcar, e analistas dizem que os negociadores brasileiros não cederam em nada, sem obter concessões dos EUA. Contudo, suspeita-se que a ala política do Governo Trump almejava uma capitulação, algo inaceitável. Conforme a balança comercial acumulada no ano até agosto, as exportações aos EUA caíram 9,7% e, para a Argentina, 17,5%. Mas cresceram 15% tanto para a China como para a União Europeia. Em valores, os chineses foram imbatíveis, comprando US\$ 77 bilhões, frente a US\$ 37 bilhões pela UE, US\$ 24 bilhões pelos EUA e US\$ 10 bilhões pela Argentina. Entretanto, o grande salto se deu na Ásia, com aumento das exportações ao continente de 52%. O destaque ficou com a Índia, que expandiu suas compras do Brasil em impressionantes 98%. Este caso merece atenção porque, apesar de tamanho econômico, que se aproxima do Reino Unido e Japão, o país tinha comércio muito fraco com o Brasil. Do 11o lugar no ano passado, a Índia passou para a quinta colocação, com US\$ 7,3 bilhões, e logo poderá superar a Argentina entre os maiores parceiros do Brasil. A ex-diplomata americana Kellie Meiman Hock, em entrevista ao jornal Valor Econômico, disse que Trump conseguiu a proeza de tornar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva um adepto do livre-comércio. Durante seus governos, o petista não deu prioridade a esses acordos, exceto no caso da UE. Agora, Lula se tornou árduo defensor, negociando, via Mercosul, pactos com Coreia do Sul, Japão e Canadá e assinando com a UE, Singapura e a Associação Europeia de Comércio Livre (Efta, em inglês, que reúne Suíça e Noruega). O risco está em manter muita exposição à China, responsável por 30% do que o Brasil exporta. Mas se trata de um bom problema, porque o país asiático não se incomoda de ter um déficit gigantesco de US\$ 25 bilhões com o País e faz investimentos na indústria e nos serviços por aqui. Os EUA também seguem como parceiro importantíssimo, mas o poder de pressão da Casa Branca se diluiu bastante.