(Antônio Cruz/ Agência Brasil) O Governo Lula age corretamente, pelo menos até agora, ao se manter fiel à tradição da diplomacia comercial brasileira, de negociar, sem cair na tentação da bravata política. Após reunião dos executivos do setor siderúrgico, atingido por tarifas de 25% impostas pela gestão de Donald Trump, a opção foi por esperar a poeira baixar e tentar retomar o sistema de cotas. Caso haja algum sucesso nesse sentido, o Brasil poderá exportar aço e alumínio aos EUA até uma quantidade limite. O que passar esse teto pagaria a sobretaxa de 25%. Não se trata de uma novidade. Em 2018, Trump, em seu primeiro mandato, aplicou esses percentuais sobre os mesmos itens, tempos depois fechando acordo que valeu até a administração de Joe Biden. Com esse acerto, o Brasil vendeu no ano passado US\$ 6 bilhões aos EUA. Essa venda precisa ser mantida a todo custo, pois o Brasil tem sofrido concorrência feroz da indústria chinesa, que consegue preços muito mais baixos, inclusive vendendo dentro do País. Os chineses também são sobretaxados, mas competirão com os brasileiros em outros mercados, uma vez que haverá o excedente que deve deixar de ir para os Estados Unidos. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que precisa ver a “minúcia” do que o departamento comercial americano pedirá com base na ordem administrativa de Trump de taxar aço e alumínio. Entretanto, Haddad tem que conter o presidente Lula nos discursos ou em suas decisões. Há alguns dias, Lula disse que adotaria as mesmas tarifas sobre os EUA, indicando uma “linha de reciprocidade”. O que preocupa é que a política hoje é feita nas redes sociais, para envolver o eleitorado contra a oposição. E nesse meio pesa muito a fala sobre “defender a soberania” ou “lutar contra o imperialismo”. Por enquanto, os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, pró-Trump, estão acuados, pois, como a campanha eleitoral republicana foi muito clara, os EUA buscarão apenas os seus interesses. Os dos outros países, aliados ou adversários, não valem. Nessa hora, é preciso assumir a defesa do País. Uma sinalização dada pelos EUA à Austrália abre espaço à negociação por parte do Governo Lula. Assim como o Brasil, a Austrália tem déficit comercial com os EUA. Além disso, o Brasil importa US\$ 1,4 bilhão em carvão siderúrgico americano, insumo utilizado pelas usinas. A argumentação de Trump para impor tarifas é reindustrializar seu país, mas também aplicá-las contra quem já sobretaxa produtos americanos. Nesse contexto, ainda há elementos que impulsionam um acordo, que é previamente desenhado por técnicos dos dois lados, antes de chegar à “minúcia” para receber o aval do alto escalão. O que o Brasil deve evitar é a resposta pronta, como a Colômbia fez com as deportações. Trump respondeu com punições, depois retiradas, mas ficou a impressão de derrota dos colombianos. Isso gerou um precedente muito ruim para os próximos embates, e Lula tem que estar pronto para agir com serenidade.