(Ricardo Stuckert/PR) O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, na última terça-feira, foi um posicionamento milimetricamente traçado para sua campanha eleitoral. A defesa do multilateralismo, participação efetiva de mais países no Conselho de Segurança da ONU e críticas indiretas ao Governo Trump (pois não mencionou o nome do presidente americano nem seu país) para a América Latina moldam a pauta diplomática da gestão petista. Entretanto, Lula se dirigiu a seus potenciais eleitores, apoiando-se em sua frase de maior impacto, de que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. O brasileiro, quanto a seus objetivos eleitorais, foi eficiente em sua apresentação. Porém, foi desafiado na área em que é mais cobrado, a da segurança. O presidente Donald Trump se reuniu com representantes dos agora direitistas Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia e Paraguai, entre outros. O organismo assinou um acordo para sancionar conjuntamente grupos já considerados terroristas, entre eles o PCC e o Comando Vermelho. Lula defende colaboração nesse enfrentamento, mas teme, com razão, a possibilidade de forças dos EUA atuarem sem autorização no Brasil. Entretanto, a gestão nessa área pela União e estados, pois todos esses entes têm obrigações contra o crime organizado, está aquém do que os brasileiros esperam. Além disso, mudanças importantes previstas para a segurança pública seguem travadas no Senado por disputas entre governo e oposição. Mesmo que seja um discurso moldado para as urnas, Lula tirou da contraparte americana todas as dúvidas sobre como ambos os governos são distantes ideologicamente e em seus objetivos administrativos. Não se trata de receio com eventuais respostas duras nem de ser necessário, como se diz, abaixar a cabeça, mas a melhor solução para as diferenças seria buscar a diplomacia, com a qual o Itamaraty se esmerou ao longo das décadas. Trump tem uma característica curiosa, de parecer respeitar mais quem resolve enfrentá-lo, não a ponto de partir para o confronto. Contra o Brasil, em meio a mudanças, ele impôs tarifas que somam 37,5% sobre importações. Como os EUA, por necessidade interna, concederam muitas isenções, como a da carne e do petróleo, o impacto foi muito reduzido, exceto para setores específicos, como a indústria de manufaturados e partes do agronegócio. É previsível que Lula, caso se reeleja, aplique a Lei de Reciprocidade, com a expectativa de alguma resposta contundente dos Estados Unidos. Observando Lula, Trump e outros chefes de estado na ONU, em meio à radicalização da política externa de diversas nações, nota-se que o mundo está mais perigoso militarmente e tecnológico, algo que o Brasil não dispõe à altura para se defender. O peso do País está na disponibilidade de petróleo, alimentos, energia limpa e minerais estratégicos, e é sobre esse “arsenal” que o País deve reforçar sua pauta externa.