A decisão dos nove municípios da Baixada Santista de buscar conjuntamente soluções para a população em situação de rua é um passo importante para enfrentar um problema que há muito ultrapassou limites municipais. A iniciativa de realizar um censo regional, estudar a criação de um centro integrado e cobrar maior participação dos governos estadual e federal merece apoio. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Santos conhece bem a dimensão e, sobretudo, a complexidade desse quadro. No censo realizado em 2019 pela Prefeitura em parceria com a Unifesp, foram identificadas 868 pessoas em situação de rua, 761 delas vivendo nas ruas e 107 acolhidas em serviços municipais. Os dados mostraram uma população majoritariamente masculina (81,9%), com forte presença de pretos e pardos (61,4%) e presente principalmente na região central. Mas talvez os dados mais relevantes para o debate atual sejam aqueles que ajudam a explicar como essas pessoas chegaram às ruas. Entre os entrevistados, 46,5% apontaram conflitos familiares, 37,1% o desemprego, 32,4% o uso abusivo de álcool e outras drogas e 14,1% a perda da moradia. Além disso, 63,5% declararam problemas de saúde. Os números deixam evidente aquilo que qualquer política pública séria precisa reconhecer: não existe uma causa única e, portanto, não haverá solução única. Há quem precise de tratamento de saúde. Há dependentes de álcool e drogas que necessitam de atendimento especializado. Há pessoas que precisam de qualificação e oportunidade para buscar emprego. Outras perderam a moradia ou romperam vínculos familiares. Cada situação exige abordagem própria, acompanhamento e integração entre assistência social, saúde, habitação e emprego. É justamente por isso que a discussão regional é tão oportuna. Um centro de referência regional pode ser parte da resposta, desde que inserido em uma política mais ampla, compartilhada pelos nove municípios e com participação efetiva do Estado e da União. A responsabilidade não pode continuar concentrada nas prefeituras. O próprio Fundo de Desenvolvimento Metropolitano da Baixada Santista existe para dar suporte financeiro ao planejamento integrado e às ações conjuntas de interesse comum da região. Se os aportes estaduais estão interrompidos desde 2019, este é um momento mais que adequado e legítimo para reivindicar sua retomada. Há, enfim, uma oportunidade de transformar um grave problema social em exemplo de cooperação metropolitana. E o debate ganha qualidade com a participação da sociedade civil, que agora tem assento no Condesb, o conselho de prefeitos. Poder público, entidades, especialistas e comunidade precisam construir juntos caminhos que combinem acolhimento e oportunidade, responsabilidade e humanidade. A iniciativa dos prefeitos de buscar solução regional é boa notícia e pode servir de modelo para outros problemas cujos encaminhamentos serão melhores com a força e união de todos.