[[legacy_image_355639]] A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir o ritmo de cortes da taxa Selic tem fundamentos no sentido de evitar um reaquecimento inflacionário, mas no âmbito da comunicação o organismo falhou gravemente. Ao invés de passar a confiança ao mercado e à sociedade em geral após reduzir os juros básicos em 0,25 ponto percentual, e não em 0,50, como antes havia prometido, ficou a sensação de que o BC poderá afrouxar o rigor, inclusive por influência política. Não significa que isso de fato acontecerá, como espera o PT, que deixa transparecer suas críticas ao presidente Roberto Campos Neto para turbinar o crescimento do País. O gasto público cobra sua conta no médio e longo prazos e o Brasil já conhece seus efeitos. A inflação volta com força porque a injeção de dinheiro estatal faz explodir o consumo e a arrumação necessária a seguir impõe cortes orçamentários e crise econômica. Isso é parte da explicação para quase duas décadas de recessões intercaladas com baixo crescimento (carga tributária elevada, baixa produtividade e efeitos externos também influenciaram nesse sentido). Na reunião do Copom, Campos Neto e quatro diretores votaram pelo corte da Selic de 0,25 ponto, enquanto os outros quatro indicados pelo Governo Lula optaram por manter o que já vinha sendo feito, a redução de 0,50. Porém, após a repercussão negativa, a ala governista, apesar da divergência, ressaltou que não abriu mão do rigor contra a inflação. A explicação tem sentido, pois poderia ter defendido, não só agora, recuos mais acentuados. Esse grupo teria alegado que também participou do comunicado do Copom de que é preciso aguardar mais sinais dos indicadores da economia para avaliar os efeitos de seguidos cortes da Selic. De fato, o mercado de trabalho reagiu muito melhor do que se esperava e há setores em recuperação consistente, com persistência da inflação em alguns ramos. Há ainda fatores externos. Os Estados Unidos ainda não deixaram claro quando será deflagrada a redução dos juros. No ano passado, já se imaginava que ela começaria agora, em maio. Taxas altas nos EUA retiram capitais dos emergentes, que ficam obrigados a manter percentuais elevados por questão de competição por investidores. Além disso, tensões geopolíticas (efeitos de guerras na economia) e recuperação dos países ricos poderão pressionar o petróleo, cuja cotação costuma espalhar a inflação por vários setores no Brasil, em especial devido à dependência do transporte rodoviário. O BC ainda vai divulgar sua ata, que é o comunicado mais profundo sobre sua decisão, uma oportunidade para deixar mais claro o contorno das divergências e como avalia as tendências na economia. Dúvidas dos agentes econômicos podem levar a incertezas, o que acaba por pressionar os juros que financiam o governo, além de adiar decisões de investimento e a concessão de crédito privado.