A cinco meses exatos do primeiro turno das eleições gerais, marcado para 4 de outubro, o calendário deixa de ser apenas uma marca formal e passa a assumir peso político concreto. A partir de agora, cada movimento ganha contornos mais nítidos de campanha, ainda que muitos discursos insistam em se apresentar como meramente institucionais. O cenário que se desenha é de disputa acirrada, como já vêm indicando resultados recentes de pesquisas de opinião e a crescente polarização do debate público. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, acumulou dois reveses significativos. No Senado, seu candidato à vaga deixada pelo ministro Luiz Roberto Barroso, o advogado-geral da União Jorge Messias, foi derrotado por uma margem expressiva de oito votos, sinalizando dificuldades de articulação em uma Casa historicamente sensível à composição política. Em seguida, o Congresso Nacional derrubou o veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, que reduz penas de envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Os episódios evidenciam fragilidades na base de apoio e tendem a ser explorados pelos adversários como indicativos de desgaste. Ao mesmo tempo, o presidente busca pautar a campanha com propostas de apelo social, como o debate sobre o fim da escala 6x1. A iniciativa, embora encontre ressonância em parcelas da população, ainda carece de aprofundamento técnico e diálogo mais amplo entre setor produtivo, entidades representativas dos trabalhadores e o Parlamento. Sem esse amadurecimento, o risco é de que o tema se torne mais um elemento de retórica do que uma proposta viável de política pública. Do outro lado, o pré-candidato Flávio Bolsonaro carrega o desafio de responder ao legado do governo de seu pai. As falhas na condução da pandemia, bem como lacunas nas áreas social e educacional, permanecem como pontos sensíveis e deverão ser estrategicamente trazidos ao centro do debate por adversários. A disputa, portanto, tende a se estruturar não apenas em torno de propostas futuras, mas também da avaliação crítica de gestões passadas. Diante desse quadro, cresce a responsabilidade das instituições eleitorais. Tribunais regionais e o Tribunal Superior Eleitoral precisarão redobrar a vigilância sobre práticas que ameacem a lisura do pleito, especialmente a disseminação de desinformação e o uso indevido de ferramentas de inteligência artificial para manipulação de conteúdo. A sofisticação desses recursos impõe novos desafios à fiscalização. Ao eleitor, cabe papel igualmente decisivo. Em meio ao volume crescente de informações, nem sempre confiáveis, será fundamental exercitar o senso crítico, buscar fontes seguras e basear escolhas em dados verificáveis. A qualidade da democracia, mais uma vez, dependerá não apenas das candidaturas em disputa, mas da capacidade coletiva de discernimento.