(Marcello Casal Jr./Agência Brasil) Resultado da Selic em níveis recordes, os grandes bancos aumentaram as provisões, reserva contábil para cobrir eventuais calotes, em alta há alguns meses. A decisão indica que o setor bancário sentiu agora, tardiamente, os efeitos do endividamento das pessoas físicas e jurídicas. Diz-se que essas instituições são beneficiadas tanto no período de juros baixos, porque emprestam mais, quanto com inflação elevada, com as taxas de empréstimos mais caras. Entretanto, quando excessos são atingidos, todos perdem. Neste caso, os bancos enfrentam mais riscos devido à parte da clientela que não suporta por longos períodos um custo financeiro tão pesado sem a contrapartida da expansão de seus respectivos negócios e de suas rendas, no caso dos trabalhadores. O aumento dos calotes e das provisões é um fenômeno específico do setor bancário. Porém, ele reflete questões macroeconômicas com origem no mercado internacional e também no nacional. Na parte externa, pouco se pode fazer contra a disparada do petróleo e os rumos do dólar. Por outro lado, a administração petista injetou muito dinheiro na economia. São iniciativas que geram emprego e estimulam o consumo, o que é bom para a sociedade no curto prazo, mas que retardam o impacto da política restritiva do Banco Central contra a inflação. Além disso, o gasto público amplia o endividamento federal corrigido a juros elevados. O ideal seria uma maior prudência no trato dos recursos públicos. Apesar do aumento de provisão preocupar, o nível atingido até o momento não configura uma crise grave, porém, merece atenção pela desconfiança dos bancos e risco de aumento da inadimplência. Portanto, a reação dos gestores do setor é mais preventiva. Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco reservaram R\$ 44,8 bilhões contra devedores duvidosos no primeiro semestre, aumento de 33% em relação a igual período do ano passado. O caso mais difícil é o do Banco do Brasil, que subiu sua provisão em 86%, em meio à inadimplência do agronegócio, abalado por extremos climáticos (seca ou chuva) e queda dos preços das mercadorias. Isso fez com que surgisse pressão dos produtores junto ao Congresso, com o governo aceitando renegociação apenas para agricultores familiares, por meio do Desenrola. A provisão não impede os bancos de oferecer crédito, mas esse valor não pode ser considerado na distribuição de lucros aos acionistas e amplia o olhar das agências de avaliação de crédito sobre as instituições. Essa tendência também indica um maior rigor na oferta de empréstimos. A potencial redução do financiamento significa um freio na economia, aliás, revelado pelo IBC-Br de março, prévia do BC para o Produto Interno Bruto. O Desenrola, se atingir a dimensão esperada, deve reduzir o nível de endividamento das pessoas físicas. Porém, a recuperação no lado empresarial vai depender do ritmo de queda da Selic, colocado sob dúvida devido ao conflito no Oriente Médio.