[[legacy_image_186951]] Diante do relato tornado público no último sábado pela atriz Klara Castanho, a sociedade brasileira está diante de um dos mais cruéis atos de invasão de privacidade e exposição da dor alheia que se tem conhecimento. A atriz revelou, em carta aberta publicada nas redes sociais, que teve violado o sigilo legal e legítimo sobre o ato que iria praticar: entregar para adoção o bebê que teve fruto de estupro que sofreu no ano passado. A história é complexa e repleta de reentrâncias impactantes – a atriz de 21 anos possui toda a documentação legal e o conhecimento da Justiça e do Ministério Público. Klara conta que foi estuprada, mas não fez boletim de ocorrência. Citou os sentimentos de vergonha e culpa em seu relato. Meses depois, descobriu que estava grávida e, sem tempo hábil para interromper a gestação – condição que lhe seria garantida pela legislação –, seguiu o rito de entregar o bebê para adoção. Essa possibilidade está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), desde que a mãe percorra todos os caminhos previstos: entrevista com psicólogos e médicos, avaliação de sua condição de saúde física e mental e acompanhamento dos órgãos de proteção às crianças e adolescentes. A lei prevê sigilo absoluto desse ato, não só para preservar a mãe da criança, como também o próprio bebê, que logo após o parto é encaminhado para uma instituição de acolhimento. Ocorre que o sigilo foi quebrado dentro do hospital, como conta a atriz, por enfermeiras que entraram em contato com colunistas de celebridades. Antes disso, Klara Castanho disse que o próprio médico que a atendeu a obrigou a escutar o coração do bebê, afirmando que “metade do DNA era dela, e que deveria amá-lo como filho”. São relatos fortes, mas que não carecem de verossimilhança porque há razoabilidade suficiente na carta aberta que a atriz divulgou na noite de sábado, afirmando, inclusive, que tinha todo o processo de entrega para adoção documentado e legalizado. A quebra do sigilo em casos assim é fato grave, e revela não só a falta de ética e respeito cometida pelo corpo de profissionais da enfermagem, como também – e tão grave quanto – a banalização da vida privada. Provoca, ainda, uma outra reflexão: o caso ganhou tamanha repercussão por se tratar de uma atriz, mas quantas outras situações parecidas devem ocorrer em desrespeito à mãe, à criança e ao ato de entrega para adoção? Esse terrível episódio merece, por todo conjunto de circunstâncias, uma investigação profunda e detalhada por parte das autoridades. Exige, ainda, um pronunciamento oficial por parte do hospital onde a jovem atriz foi atendida. Na mesma semana em que outro caso ganhou repercussão – o da menina estuprada e instigada por uma juíza a seguir adiante com a gravidez em Santa Catarina –, choca quão longe a humanidade está da tão desejada sororidade. Klara Castanho, assim como todas as mulheres vítimas de violência ou não, merece respeito.