Os vídeos com autoridades federais e políticos de grande expressão nacional em festas ou demais eventos bancados pelo banqueiro Daniel Vorcaro mostram o nível preocupante com que nomes importantes de Brasília se relacionam com empresários e executivos. Estes últimos integram uma elite do setor privado que, cedo ou tarde, poderá depender de uma decisão judicial, algum artigo favorável em projetos de lei ou uma assinatura do Poder Executivo. São interesses que se cruzam, geralmente longe dos olhares da imprensa e dos contribuintes, e que podem contrariar a competitividade saudável entre empresas devido a relações privilegiadas entre o público e o privado, e em detrimento dos melhores serviços à sociedade. Conforme reportagens da semana passada e do último domingo, em registros feitos em 2024, o procurador-geral Paulo Gonet aparece em degustação de charutos com Vorcaro em Londres. Já o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e seu diretor-executivo William Murad, assim como o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e os ex-ministros do Governo Jair Bolsonaro nas Comunicações, Fábio Faria, e na Casa Civil, Ciro Nogueira, estão em uma festa paralela a um evento jurídico, também em Londres e em 2024. Por último, um vídeo do ano passado revela o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua esposa Viviane Barci desembarcando de avião de uma empresa ligada a Vorcaro. Moraes pontuou, antes da reportagem e após a divulgação pelo jornal O Globo, que nunca viajou em aeronaves de Vorcaro. Já Viviane disse que contrata diferentes empresas de companhia de táxi aéreo, incluindo a relacionada ao banqueiro, mas que nenhuma pessoa alheia ao escritório de advocacia esteve a bordo. As explicações das várias autoridades agora precisam ser investigadas e cruzadas com outras informações, como contratações e outras decisões do Judiciário, Legislativo e Executivo – talvez a Polícia Federal até esteja com esse trabalho bem adiantado. De qualquer forma, os fatos sinalizam que o convívio constante entre autoridades e o banqueiro amplia a desconfiança da sociedade, o que é muito grave, passando a certeza de que é prática comum na esfera federal. É previsível que representantes de empresas busquem autoridades públicas para defender seus negócios, mas isso precisa ser feito de forma transparente. Por outro lado, é preciso ter regras duras frente a servidores com poder decisório e familiares prestando serviços remunerados na esfera de seus órgãos. Como é o caso de ministros do STF e escritórios de advocacia de familiares bem ativos, como as reportagens citaram nos últimos dias, sobre os casos de Moraes, Nunes Marques e Luiz Fux. Os três poderes têm corregedorias e conselhos de ética. Entretanto, o caso Master prova que essas ferramentas são insuficientes, ainda com baixa capacidade para promover mudanças saneadoras. A sociedade não pode aceitar abusos.