(FreePik) O acordo de 90 dias entre Estados Unidos e China traz uma dúvida sobre a guerra tarifária entre as duas potências – até agora, quem levou a melhor? Pequim ou Washington? Trata-se de uma questão relevante para o Brasil, que tem os dois países como principais parceiros comerciais. A China responde por quase 30% do comércio exterior brasileiro, que oferece múltiplas commodities (produtos minerais e agrícolas). Já os americanos são importadores diversificados, também de agropecuários e minerais, e ainda aço e industrializados. Nessa disputa comercial, ainda não há vencedor, porque houve uma trégua. Mas os chineses se certificaram que têm poder de barganha. No acordo, durante três meses, as tarifas dos EUA, de 145% sobre importados da China, ficam em 30%, enquanto a China, dos 125%, cobra 10%. Parece uma derrota mais do país asiático, porém, os EUA têm uma sobretaxa com mais gordura para ser reduzida, enquanto a China poderá fazer algumas elevações pontuais sobre os EUA, como ir a 15% com pressão. Porém, ainda não são conhecidas as entrelinhas da trégua, se ela tem bases confiáveis e se terá condições de ser mantida após os 90 dias. Antes da trégua, com tarifas altíssimas sobre suas exportações, a China corria o risco de sofrer demissões em massa. Basta pensar em uma fábrica com 10 mil funcionários cujos produtos dobram de preço de um mês para o outro, ficando sem receita e perdendo mercado para concorrentes com taxas mais baixas. E ainda o efeito que isso teria nos fornecedores dessa empresa e no consumo dos trabalhadores demitidos. Já os EUA sofreriam com a inflação quase que instantaneamente, derrubando o comércio e causando desemprego. Paralelamente, punir os chineses significa interromper cadeias de produção que atendem os EUA, encarecendo-as e retardando as entregas. E simultaneamente levando os empresários a suspender investimentos, com medo da recessão. Alguns setores da economia brasileira ficaram animados com a briga, como no agronegócio, com a China trocando commodities americanas por brasileiras. Mas com as duas maiores economias em recessão, seus fornecedores também sentiriam, porque os compradores demandariam menos importações. Além disso, a China não vê com bons olhos depender apenas de uma cadeia de suprimentos. A verdade é que o Brasil e a Índia, entre outros poucos países, estão bem posicionadas, sofrendo tarifas inferiores à da China ou, no caso do Brasil, com déficit em relação aos EUA, o que inibe o argumento de perdas dos americanos. O fato é que as tarifas persistem, agora muito mais baixas, e algum efeito elas terão, mas não de perda econômica avassaladora, como se esperava. Falta saber se o Brasil vai ter uma renegociação com os EUA, como trocar tarifas por cotas com sobretaxas mais baixas, na prática mantendo as condições do primeiro mandato do presidente Donald Trump – deve-se ressaltar que sua política é arcaica e inibe a inovação e premia a ineficiência.