[[legacy_image_203063]] É possível que hoje o mercado financeiro mundial volte a operar com muita dor de cabeça após as afirmações do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powel. No tradicional simpósio de Jackson Hole, que reúne convidados de BCs nos EUA, Powel falou que haverá “alguma dor para famílias e empresas” do país. Isso significa que os juros vão subir mais do que se espera para enfrentar a inflação por lá. No Brasil, a análise que se tem é contrária, de que o Banco Central está em sua fase final de alta da Selic – de 2% em janeiro do ano passado, agora são 13,75% ao ano. É esperado que em 21 de setembro, próxima reunião do BC, a Selic fique estável. Na prática, ela continuará encarecendo o crédito e desestimulando investimentos e o consumo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A fala de Powel é muito preocupante para o Brasil. Nos EUA, os juros públicos estão situados entre 2,25% e 2,5%. Outros dirigentes do Fed disseram no simpósio que o ideal era que as taxas americanas fiquem entre 3,75% a 4% até o fim do ano. É muito percentual para a mais rica economia do mundo, que há décadas pouco alterava o custo do crédito. Powel deixou mais um recado: de que o esforço para levar a inflação americana dos atuais 9% para 2% ao ano causará um “crescimento abaixo da tendência”. Isto é, o país vai crescer menos para esfriar o consumo e os preços caírem. O impacto nos emergentes é de saída de dólares. Como os títulos americanos são os mais seguros e renderão juros mais altos, não haverá motivos para grandes investidores, como fundos de pensão, mais conservadores, correrem risco no Brasil, por exemplo. Com a saída de moeda americana do Brasil, a cotação do dólar vai subir. Aliás, a divisa vai se fortalecer perante qualquer outra do mundo porque haverá uma procura mundial por dólar para comprar títulos americanos. A subida dos juros americanos tende a causar recessão ou crescimento lento nas economias ricas, o que anula as possibilidades do petróleo subir – se o consumo cai, não há como o barril se valorizar. Os árabes podem cortar a produção, mas não tanto, pois suas receitas despencariam. No lado brasileiro, a valorização do dólar tende a impedir o País de se beneficiar de um petróleo mais barato. Além disso, as exportações brasileiras de commodities deverão recuar, se o mundo realmente entrar em recessão. Há ainda outro problema no radar. A China está em apuros, com setor imobiliário em crise e seca (antes era a covid) parando algumas metrópoles. Com isso, o país crescerá pouco – para analistas, 1% ao ano. Os chineses não vão parar de consumir comida, mas há outros itens e as vendas do Brasil a eles correm o risco de despencar. Só com o tempo será possível saber a força com que esses sinais chegarão ao Brasil, que naturalmente já vive uma tensão de período eleitoral. Mas algum impacto haverá. Daí a dor que Powel disse que famílias e empresas podem sentir – isso vale para o Brasil também.