(Imagem ilustrativa/ FreePik) O Brasil já conheceu, no passado recente, os efeitos perversos da tolerância com jogos de azar disfarçados de entretenimento. Foi assim com os bingos que funcionavam com dinheiro, fechados após anos de controvérsia, suspeitas e danos sociais. Foi assim também com as máquinas caça-níqueis, contra as quais se fechou um cerco legítimo, diante do potencial de vício, lavagem de dinheiro e exploração econômica de pessoas vulneráveis. É difícil, portanto, justificar que as chamadas bets, hoje multiplicadas em celulares, redes sociais, camisas de clubes, transmissões esportivas e campanhas de influenciadores, sejam tratadas com menos rigor. Ao contrário: o cenário atual é mais grave. Não se fala mais de salas escondidas, cartelas de bingo ou máquinas instaladas em fundos de bares. Fala-se de milhões de brasileiros expostos, diariamente, a plataformas de apostas on-line acessíveis em segundos, muitas vezes apresentadas como diversão, oportunidade ou até caminho para renda extra. O problema ganhou escala nacional e atinge de modo preocupante os jovens. Influenciadores digitais e jogadores de futebol emprestam imagem, linguagem e credibilidade a um mercado que cresce em ritmo agressivo. A promessa de ganho fácil se mistura ao entretenimento, ao esporte e à cultura digital. O resultado é uma fronteira cada vez mais perigosa entre lazer, endividamento e dependência. Não basta identificar quem aposta. Não basta criar mecanismos contra lavagem de dinheiro, rastrear sites ilegais ou exigir autorização de funcionamento. Tudo isso é necessário, mas insuficiente. A questão é mais profunda. As bets têm impacto direto sobre a renda familiar, o orçamento doméstico, o consumo, a saúde mental e a organização financeira de milhões de pessoas. Não haveria problema algum com esse mecanismo de apostas se houvesse a cultura do consumo apenas para diversão equilibrada, manejo adequado dos recursos disponíveis e consciência sobre os limites. Mas não há, e a questão passou a ser social. O Estado não pode tratar as bets apenas como uma nova fonte de arrecadação. A tributação do setor não pode servir de álibi para a normalização de uma atividade que produz dependência, perdas financeiras e sofrimento familiar. Se houve legitimidade para fechar bingos e combater caça-níqueis, há ainda mais razão para impor às apostas online um regime duro, restritivo e urgente. Publicidade distorcida, patrocínios esportivos, atuação de influenciadores e acesso irrestrito por aplicativos precisam ser enfrentados com prioridade máxima. Medidas rigorosas não são exagero; são responsabilidade pública. O governo deve agir antes que a dependência digital em apostas se consolide como uma epidemia financeira e emocional. As bets não podem continuar ocupando todos os espaços da vida cotidiana como se fossem apenas mais uma forma de entretenimento. São jogo de azar, com roupagem tecnológica e alcance massivo.