(Joédson Alves/Agência Brasil) Os números impressionam. Levantamento recente mostra que o mercado legal de apostas esportivas movimentou R\$ 12,2 bilhões apenas entre janeiro e abril deste ano, arrecadou bilhões em tributos e projeta um crescimento ainda mais acelerado impulsionado pela Copa do Mundo. A consolidação das bets como um setor econômico relevante é um fato. O desafio está em compreender o que existe por trás dessa expansão e quais são seus impactos sobre a saúde financeira das famílias brasileiras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É inegável que a regulamentação trouxe avanços. A atividade passou a gerar empregos, arrecadação e mecanismos de fiscalização que antes não existiam. Também permitiu ao Estado acompanhar um mercado que já movimentava bilhões na informalidade. Sob essa ótica, o crescimento do setor pode ser visto como parte de uma nova economia que veio para ficar. Limitar a análise aos indicadores de faturamento, porém, seria um erro. O mesmo país que celebra a arrecadação crescente das apostas convive com níveis recordes de endividamento. Dados oficiais apontam que mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, enquanto o número de inadimplentes supera 80 milhões de pessoas. Não se trata de estabelecer uma relação automática entre apostas e endividamento. A realidade é mais complexa. A inflação acumulada dos últimos anos, o elevado custo do crédito, a perda de renda e o desemprego explicam grande parte da fragilidade financeira das famílias. Seria simplista atribuir às bets a responsabilidade exclusiva por um problema estrutural. Por outro lado, também seria ingênuo ignorar os sinais de alerta. O modelo de negócio das bets se apoia justamente na recorrência das apostas e na expectativa de ganhos rápidos. Para uma parcela da população que já enfrenta dificuldades financeiras, a promessa de transformar pequenas quantias em grandes prêmios pode funcionar como um perigoso atalho ilusório. Nesse contexto, o lançamento do Novo Desenrola Brasil, conhecido como Desenrola 2, ganha relevância. O programa federal, iniciado em maio, oferece descontos de até 90% sobre dívidas e condições facilitadas de renegociação para famílias de baixa e média renda, numa tentativa de reduzir a inadimplência e devolver capacidade de consumo aos brasileiros. A questão central, porém, vai além da renegociação de débitos. O país precisa avançar em educação financeira, transparência na publicidade das apostas e mecanismos de proteção aos consumidores mais vulneráveis. Afinal, não faz sentido criar programas para retirar milhões de brasileiros do endividamento enquanto se negligenciam práticas que podem contribuir para agravá-lo. O crescimento das bets é uma realidade econômica. O desafio do Brasil é garantir que essa expansão não se transforme em mais um combustível para uma crise de endividamento que já cobra um preço alto demais da sociedade. É um contrassenso e um desperdício de dinheiro, tanto público como privado.