Como previsto por 75% dos analistas consultados a cada definição dos juros, o Banco Central optou pela redução da taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Mesmo assim, desconsiderando os percentuais da Selic desde março do ano passado (quando atingiu 14,25%), o atual patamar é o maior desde outubro de 2016, quando o então presidente Michel Temer estava no segundo mês de seu governo. Na época, o País passava por grave crise fiscal e o mercado havia perdido a confiança na política monetária do BC. Portanto, a autoridade monetária precisa ter muito cuidado com suas decisões, assim como não se deve pressionar por soluções criativas para derrubar os juros. O fato é que o País gasta mais do que arrecada, fazendo com que o setor financeiro cobre juros mais altos para emprestar ao setor público. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na decisão de quarta-feira, o BC foi mais cuidadoso, após um comunicado confuso da reunião de 17 de junho, quando o órgão apontou um risco de mais inflação, mas decidiu cortar a Selic em 0,25 ponto, para 14,25%. Agora, a manifestação foi mais curta e objetiva, sem detalhar o próximo passo (em 16 de setembro). A diferença em relação a um mês e meio atrás é que os preços ajudaram, com os índices caindo abaixo do esperado, e o petróleo recuou. A guerra poderá voltar a deixar o barril mais caro, apesar do Governo Trump tentar evitar essa possibilidade, pois está impopular, o poder aquisitivo nos EUA caiu e a eleição de novembro poderá deixar a maioria do Congresso com os democratas. O Banco Central também foi claro que não confia na queda da inflação, porque há muitas incertezas além da guerra. Uma delas é a ameaça de um El Niño intenso ainda neste ano, causando chuvas e seca que poderão reduzir a oferta de alimentos e pressionar os preços. Paralelamente, o Governo Lula continuará estimulando a economia com vistas às urnas, enquanto os economistas permanecem preocupados com o déficit da União, dos estados e dos municípios e os juros altos inflando o endividamento federal. Se o clima ajudar e a guerra acabar, é possível que a inflação continue caindo. Outro fator de colaboração é o menor crescimento da China, Estados Unidos e União Europeia, como resultado da subida dos combustíveis e de seus governos em situação parecida à do brasileiro, deficitária, mas com inflação ascendente. Contra isso, os juros também subiriam por lá, reduzindo a demanda por mercadorias e diminuindo a pressão sobre os preços no Brasil. Mas seria uma conjunção muito favorável, que costuma ser difícil de acontecer. Deve-se lembrar que o BC subiu os juros para atingir a meta de 3% ao ano até o primeiro semestre de 2028. Por enquanto, a inflação está em 4,64%, com o mercado prevendo que ela fechará o ano em 5%. Por isso, a expectativa é que ocorra somente mais um corte, de 0,25, neste ano. Mas promessas eleitorais por mais despesas, tanto da situação como da oposição, poderão ampliar as incertezas.